Aos que não conhecem esses dois produtores de prazeres gustativos em forma de massa redonda coberta por divinos recheios, meus sentimentos. Se você é daqueles que se satisfaz com massa fina, muitas vezes torrada, borrifada com molho pronto e certos absurdos como catchup, frango desfiado, milho e etecétera, me avise que vou retirar seu nome de minha agenda. Você não merece constar de minha lista de amici. Me atrevo dizer que sua vida poderia ter sido no mínimo muito mais feliz. Mas sempre há uma salvação. Basta me avisar que iremos juntos a uma delas. Você paga a conta, certo?
Voltando às nossas redondas:
-Dá pra imaginar um mundo mais perfeito do que aquele que tem pizza, sexo, futebol e cerveja (não necessariamente nessa ordem)?!?
Bem, nossa turma tinha por hábito devorar pizzas quase todos os sábados à noite. Éramos dez, quinze, vinte comensais. Verdadeiros gurmês da pizza (se é que isso possa existir). Como vinha dizendo, todos os sábados, sorteávamos uma das famosas pizzarias e passávamos bons momentos saboreando aqueles manjares triangulares, regados com um belo azeite, e acompanhados, evidentemente de muita cerveja e cantoria.
Certa feita, um certo José Sayeg, o Zé Turquinho, descendente de legítimos libaneses resolveu abrir uma pizzaria. Ficamos todos atônitos mas, como o Zé Turquinho era amigo, demos nosso apoio!
Ficou combinado que antes da inauguração, nossa turma seria convidada para provar as pizzas elaboradas na nova casa.
Sayeg alugou uma bela casa pertinho da Pizzaria São Pedro e da famosa Rua Javari onde se encontra o campo de futebol do glorioso Juventus.
Após uma reforma de três meses, num belo dia recebo um telefonema do Turquinho:
-Alô, brimo?
-Fala Turquinho, o que você manda!
-Prepare o bucho. Vou fazer a pré-inauguração da pizzaria nesse próximo sábado! Avise a turma!!! Tudo free!!!
Imediatamente liguei pra todos e nos preparamos para a boca livre.
Sábado, oito da noite, a italianada toda na porta da pizzaria do Sayeg. A porta de metal se levanta e…Primeira surpresa da noite. A casa se chamava Pizzaria Cedro do Líbano, e entre aspas o slogan: “aqui é tudo bahani”.
A entrada parecia uma tenda árabe, com direito a treliças, véus e iluminação de lamparinas. Pra ajudar o clima, um forte cheiro de incenso invadia o ambiente.
Entramos meio desconfiados e dirigimo-nos para uma mesa baixinha (devia ficar a 40 cm do chão). Ao redor dela, ao invés de cadeiras, almofadas. Meu primo Gaetano muito desconfiado disse:
-Dio Cristo, ma isso é uma pizzeria ou uma casa de massagens?
Nisso, ouve-se uma música árabe e adentra o salão, rebolando feito doida, uma senhora de uns 160 kg, vestida com véus e um tipo de biquíni dourado. Turquinho olhou pra gente com muito orgulho e disse:
-Minha tia Ione vai dançar pra vocês. Essa é a dança do ventre!
Haja ventre! Aquela senhora balançava suas carnes envoltas em muita celulite com um entusiasmo que eu nunca havia visto. Numa manobra mais ousada, começou a tirar os véus. Aproximou-se de nossa mesa e arrancou o sutiã. Seus seios enormes caíram sobre a cabeça do nonno Gennaro. O velhinho aplaudia e tentava beijar aquele verdadeiro úbere com um só bico.
Nisso Zé Turquinho grita:
-Adesso, iamo mangiare!!
A primeira pizza que trouxe, era feita com um queijo esquisito, muito mole e meio azedo, salpicado de pistaches. Zio Domênico logo reclamou:
-Ma que catso é questo?
Ao que o Turquinho respondeu:
-Pizza de coalhada seca!
-Coalhada? Ma isso é coisa de por em pizza?
A essa altura, a dançarina do ventre rolava aos beijos e semi-nua com Nonno Gennaro. Aliás, ele havia sumido debaixo daquela opulenta espécie feminina. Eu só ouvia Tia Ione gritando:
-Da moheaanni, da moheaanni!
E o nonno:
-Eu também, to quase, to quase.
Bom, o Turquinho que havia sumido aparece com outra pizza e novamente Zio Domênico:
-Io non credo! Cadê o molho, cadê a mussarela? Que pizza é questa, de verdura e sem molho?
E o Sayeg:
-É de folha de uva com zátar!
-Mas essa porcaria é seca! como vou engolir isso?
-Prepare-se para a próxima. A estrela da casa! disse o Turquinho todo orgulhoso.
E não é que ele vem com outra pizza esquisita! Aí quem reclamou fui eu:
-Orra Turquinho, agora você se superou! Pizza de carne moída????De boi ralado!?!?
-Claro, é a melhor de todas. Na minha terra só se come dessas!
-Então enrola essa pizza e enfia lá que eu vou embora!
-Mas você não vai nem esperar a de chanklish?
-Vai se catar. Monta uma casa de esfiha, pô!!!
Arranquei o nonno Gennaro debaixo daquelas carnes da Tia Ione. Ele estava vermelho como um peru, resfolegando e dizendo:
-Deixei a turca maluquinha! Mas, Turquinho, me explica o que é que quer dizer “da moheaanni” que ela tanto gritava? É tá bom? Tá gostoso? Vou desmaiar?
Ao que o Sayeg responde:
-Em nosso dialeto quer dizer “TÁ FORA”!!!
Saímos todos, muito decepcionados e fomos até a Pizzaria do Ângelo mangiare una vera Pizza, pra esquecer de vez aquela palhaçada que o Sayeg aprontara.
Na semana seguinte, passei em frente a pizzaria do Turco e vi que ele mudara o letreiro da fachada. Onde antes se lia Pizzaria Cedro do Líbano, agora era Casa de Esfihas!
Está lá até hoje. E posso dizer de carteirinha que é a melhor esfiha de São Paulo!
Luiz Antonio Caropreso
[/su_spoiler] [su_spoiler title=”Quero ricordá do tanta cosa…Qui nem sê…” style=”fancy”]Io quero ricordá, im libro, dos tempo di lá do trais,Do tempino da vécchia Móca… do tempo do Parqui Shangai…
Io quero lembra im verso, o culégio M.M.D.C.
das coza daquele tempo, qui nunca mai vó m’ isquecê…
Io quero ricordá du churro, que si mangiava na churraria,
da fera lá na Dom Bosco… do paste qui si cumia,
Io quero lembrá du tempo… du tempo di rapazzola,
du tempo do cine Roma… do paste da ragazzeta…
Io quero lembrá da Móca, du Clube Real Madri,
du tempo di giogá bola… cum o Airto e cu’ o Giquirí…
Io quero recordá du tempo que nó m’ isquecí
Das dumingas de las cervegias … co Vitório e Laduí…
Io quero mi lembra xuxando, o pani im sardela fria,
da festa di San Genaro, du vino e d’alegria…
Io quero ricordá du lanche qui lá no Dorazio cumia,
daqüela mortadela quente… du Bauru qüeli fazia…
Io quero lembra alegro, du tempo qui só si ria,
Du Pepe Lega chigando… na frenti das scuderia…
Io quero ricordá da Móca, du tempo qui si vivia,
du tempo que era felice … era felice e nem sabia…
Carlos Guido Piva
Poema extraído do livro “Orra Meu! O canto da Mooca”
Escrito por Carlos Guido Piva
Conheça mais sobre este poeta Mooquense, na página de “Famílias e personalidades”
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Mooca 446 anos” style=”fancy”]Quando qualquer forasteiro
Chega sem prévio aviso,
É atendido por inteiro,
Sempre com um largo sorriso.
Por isso quem aqui reside,
Ou freqüenta o pedaço,
Sabe que aqui se progride,
E o cumprimento é o abraço.
A mulher deste recanto,
Todos sabem de sobejo,
É lindo, é um encanto,
saudada sempre com beijo.
É consenso que na Mooca,
Venha alguém de onde for,
O mooquense se desloca
E o recebe com amor.
Raluca
Vale a pena você conhecer um pouco mais deste Mooquense apaixonado pelo bairro na página “Famílias e Personalidades”
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Cozás da Mooca” style=”fancy”]Antigamenti si dizia qui afazê uma paródia, era isculachá cum a obra litarária qui fô feita. Oggi é deferente. Acho io, qui é a maió omenagi qui si pódi afazê prá alembrá da obra imortali qui, sei lá perquê, s’isquéce, ô qui giamais si tevi a opurtunidadi di conhecerla! Qüesta paródia e di uma poesia chiamada ‘ Cancione do Ezílio’ do grandi poeta Gonçarvis Diaqui nó era moquensi… ma era uno bruta di uno poeta.
Aqüi mi faço questa poesia prá omenagiá eli e la Móca atuá.
Mia Móca tê Parmêra…
o Curintia e mai sei lá!
Tutti elis é di fóra
só o Juventus é di la!
Nostro ciello é d’istrela
tutto cheinho di fumaça
delas pizza das cantina
qui tutto dia lá si ássa!
Quando tô suzinho a nótte
e uno chopinho bebo lá
só iscúito as buzina
e os guardinha apitá…
Mia Móca tê valoris
qui nó dá prá creditá
di pensá suzinho a nótte
molta istória vô contá:
dos amici… das isquina
di tutto qui mi passê por lá!
Nó permita Dio quio mi morra
sem qui io nó istêgia lá
senza vê os meo amore…
o Juventus… meos amici
as pizza das cantina
o chopinho gieladinho
e as arcachôfra di mangiá
###
GUIDO PIVA
MAI CUNHECIDO COME
PIMPINELLO RIZONI
Conheça mais sobre este poeta Mooquense, na página de “Famílias e personalidades
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Histórias da Mooca – Parte I” style=”fancy”]Quando passou o tempo de escola, a rapaziada deu para fazer footing, nas noites de sábado e domingo, entre a rua João Antonio de Oliveira e a avenida Paes de Barros, ou para jogar futebol na várzea, possivelmente no time de Salvador Sprovieri, que o chamara pelo o nome de uma dança da moda, Black Botton, com isso ganhando muito em reputação.
Na disputa do campeonato paulista, a Mooca já entrava com o Juventus, mas o pessoal era de paixão palestrina, que permaneceu, intocada, até os dias de hoje.
Poderosos quadros varzeanos eram o Mem de Sá e o Meu Clube, enfim fundidos no Mooca Atlético clube, o Xingu, em que militavam os irmão Iervolino, e o Madri, com sede social instalada no próprio bar Madri, na esquina da rua Xingu, mais tarde Dom Bosco com Ana Neri. Dali saíam para os embates domingueiros os seus craques do primeiro e do segundo time, vestindo os seus esplendorosos uniformes, tingidos com as cores da Espanha, roxo, amarelo e vermelho. Partiam a pé, no rumo do seu campo de terra vermelha a esperá-los nas cercanias do Balão de Gás, à Margem da Avenida do Estado, e o povo surgia emocionado nas calçadas e os moleques corriam atrás daquele majestoso desfile com as camisas cheias de vento. Durante a guerra, o Madri mudaria de nome, viraria Tigre Varzeano, e nas suas fileira militaria um mito, Mario Pescoço Torto, gênio da cabeçada para contrariar a natureza que lhe colocara a cabeça sobre os ombros de forma, digamos assim, irregular, como se Mario estivesse constantemente interessado na conversa de quem se postasse à sua esquerda.
O bar Madri e seu fogoso time tinham razão de ser, já que a rua Dom Bosco era terreno dividido entre espanhóis e Italianos, sem contar que desaguava bem defronte à Vila da Merda, cortiço de cem ou mais moradias, na Ana Neri, quase todo habitado por espanhóis, lá pelas tantas empenhados em mudar-lhe o nome para vila das Flores. Em vão. No último trecho da Dom Bosco, entre rua Lins e a Ana Neri, a repartição do espaço era perfeita: os espanhóis moravam de um lado, com a única infiltração dos Tottaro, donos de vendas de bilhete da loteria,e do carroceiro Muschitiello, e os italianos do outro. Estes levavam vantagem na língua, talvez porque possuíssem vozes mais volumosas, e o dialeto napolitano era o verbo oficial.
Os espanhóis, porém, restabeleciam o equilíbrio por obra do Madri, reconhecido como time de toda a rua, e da Zambomba, espécie de folia de reis organizada por um certo Campana ao som de pandeiro ciganos e barricas forradas de couro, cuícas gigantes de ronco grosso. A Zambomba, em ocasiões aprazadas, vinham cantando “abre la puerta, abre la puerta, que já quiero entrar”, e todas as portas se abriam, espanholas ou italianas tanto faz, e a cantoria invadia as casas e só se calava para que o pessoal tomasse vinho.
A Dom Bosco era uma aldeia encravada dentro da Mooca, nem mais nem menos que outras ruas, cada uma com vida própria e seus tipos característicos, como a Mariuccia Loca, que andava em andrajos e pedia às mulheres que faziam bordados para as lojas da rua Oriente: “Nanni”, me dá uma striscia? “ Queria dizer, uma tira de pano, e, sendo fita colorida, melhor ainda, e a mim me encanta que chamasse as bordadeiras pelo mesmo nome como se todas fossem Giovana, ou Giannina, cujo diminutivo há de ser, justamente, Nanní. Já na década de quarenta, Mariuccia esticava até a esquina da Barão de Jaguara com a rua da Mooca, onde a Destilaria Bandieri colocara um balcão para servir a sua última invenção, a passarella, mistura de pinga com uva passa, e copos de groselha, a inolvidável groselha Bandieri. O que movia Mariuccia era a esperança de ganhar um copo cheio, e tendo a crer que, sem subestimar a qualidade do refresco, ela tivesse maior consideração por um aperitivo que inebriou toda uma época.
Um dia, um japonesinho apareceu na rua Dom Bosco. Acabava de mudar-se para rua Ana Neri e seus pais eram fabricantes de bonequinhos de olhos puxados, destinados a habitar as cristaleiras da sala de jantar, entre miniaturas da Cinzano e flores de plásticos. Foi um dia de indescritível surpresa, mas logo o japonesinho entraria nas peladas da rua, sem que os seus novos amigos se dessem conta de que a Mooca não era mais aquela.
Autor : Mino Carta, do livro “Histórias da Mooca”
Saiba mais sobre este grande escritor na página de “Famílias e Personalidades
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”A turma da Mooca na maior vula” style=”fancy”]Nos idos de 60-70, a garotada da Mooca usava uma gíria pra dizer que alguém ou algo estava muito veloz:
– Meu, ele passou por aqui na “maior vula”!
Tínhamos um amigo literalmente viciado em velocidade. E mais, velocidade sobre duas rodas, em possantes motocicletas. Seu nome era Luiz Colombo, um exímio motociclista, que arrasava corações de gatinhas com sua moto roncando alto pelas ruas da nossa República Federativa da Mooca. Apenas um detalhe depunha contra o exímio motoqueiro: Ele não enxergava bem. Aliás, enxergava bem sim…bem mal. Se não me engano, por um acidente desses da vida, Colombo teve suas retinas queimadas. Se estou falando alguma grande bobagem, que me desculpem os senhores doutores em medicina, mas era assim que a gente se referia ao problema dele: retinas queimadas! Colombo não conseguia diferenciar uma árvore de um ser humano a mais de 3 metros de distância. Parece que só enxergava vultos.
Ainda assim, nosso amigo Luiz voava em duas rodas pra todo o canto. E sempre arranjava um maluco maior do que ele para ser seu garupa…e seu “cão guia’, cá entre nós!!!
Um desses doidos de plantão era meu grande amigo Afonsinho, dono da famosíssima Pipi Burger, uma lanchonete que servia de base pra todos nós. Luiz pilotava e Afonsinho o guiava:
– Colombo, vai aparecer uma esquina em 3 segundos, vire pra esquerda!
ou:
– Uma senhora está atravessando a rua, reduza!
ou ainda:
-Tem um bueiro bem na nossa frente, desvie um pouco pra direita!
Era uma parceria de fazer inveja. Apesar de todos os riscos, nunca haviam sofrido um acidente!
Numa bela tarde de domingo, Colombo decide “dar umas bandas” pela Mooca e convida Afonsinho, que aceita de imediato. Após algumas voltas, Luiz resolveu descer a Rua da Mooca “na maior vula” pra testar a potência da moto:
-Vamos ver até qual velocidade esta geringonça vai!
Sempre existiu uma linha de trem que cruza a Rua da Mooca, mais ou menos na altura da famosa Cervejaria Antártica. Hoje um viaduto sobrepassa o obstáculo férreo, mas naquela época havia uma cancela, com dois braços que bloqueavam a rua quando da passagem dos trens.
Eles deviam estar a uns 150 km por hora quando se aproximavam das porteiras e estas começaram a se fechar. Colombo vira pro Afonsinho e pergunta:
-Você acha que vai dar pra passar??
E ele:
– Vai, pode ir que vai dar sim! Mas acelera!!! Acelera pô!!!!!
– Não dá mais meu! Já tá no limite da moto!
– Então mira no meio e vai fundo!!!
Colombo seguiu as instruções do Afonsinho e acelerou tudo o que pode. Afonsinho gritava:
– Vai, vai que dá, vai que dá…
E…”pow”! Colombo acerta a cancela com o capacete e arranca sua ponta. A moto serpenteia pra todos os lados, mas o motoqueiro consegue restabelecer o equilíbrio e os dois voltam ilesos para o Pipi Burger. Além da cancela, o único avariado foi o capacete de Luiz.
Se vocês acham que com esse susto meus amicelli Luiz e Afonsinho desistiram de suas aventuras, ledo engano! Ficaram mais ousados e atrevidos. Além do que, Colombo adaptou a ponta da cancela (que ele recuperou) na frente de sua moto e a ostentava como um troféu.
Após algum tempo, Colombo sumiu. Deve ter-se mudado da Mooca, pois nunca mais o encontrei. Já Afonsinho, pegou gosto pela coisa. Hoje é ele que circula pela Mooca em possantes motocicletas. E, curiosamente, também perdeu o acuro visual…coisas da idade. No entanto tantos anos como co-piloto de Colombo serviram pra alguma coisa. Afonsinho consegue pilotar seu bólido “na maior vula” até com os olhos vendados! Mas, com certeza ele está precisando de um bom co-piloto pra ser seu garupa. Que tal, meu amigo leitor, você não quer se habilitar? Gosta de emoções fortes? A vaga está aberta!!!
Luiz Caropreso
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Mooca” style=”fancy”]Esta Mooca que já ultrapassou
Seus quatrocentos anos de fundação,
Cujos filhos dela se ufanam,
Que tem bandeira, hino e brasão.
Esta Mooca de bravos filhos,
Que dela só admitem verdades,
Com delegacias e corporações militares
E uma das maiores universidades.
Esta Mooca do trabalho e dos estudantes
Que não esmorecem sequer um momento,
Que tem jornais e grandes associações civis,
Esta Mooca também tem movimento.
Esta Mooca das três igrejas de Deus,
Onde o povo se encontra em oração,
Se fosse uma parte do corpo do Brasil
Com certeza seria o coração.
Raluca
Vale a pena você conhecer um pouco mais deste Mooquense apaixonado pelo bairro na página “Famílias e Personalidades”
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Uma linda mulher (da rua do Oratório) ” style=”fancy”]Achei muito estranho aquele ônibus amarelinho parando fora do ponto na rua do Oratório, quase em frente da rua Juvenal Parada, para aquela moça descer. Não lembro precisamente, mas isso ocorreu nos primeiros anos da década de 60 e eu era um adolescente voltando do colégio.
Quem morava na Mooca nesse período certamente vai lembrar que existiam três linhas de ônibus “amarelinho” que subiam a rua do Oratório : o 27 – Oratório, o também 27 – José Higino e o 28 – Bertioga, todos com ponto inicial (ou final ?) na Praça Clóvis Bevilacqua . Tinha também o 26 – Parque da Mooca, mas este não subia a Oratório e, portanto, não tem nada a ver com esta história.
Bem, mas voltando ao ônibus parando fora do ponto. Esse tipo de concessão não era nada comum, mas naquele dia isso aconteceu. E o mistério ficou mais ainda ampliado pelo fato de que, quando o ônibus voltou a retomar seu itinerário, não mais vi a misteriosa moça. Ela sumira de repente, tendo possivelmente entrado em alguma casa, despertando mais ainda minha curiosidade. Quem era aquela moça? Por que era obsequiada com uma parada especial?
No dia seguinte, voltava eu do colégio em torno do mesmo horário e, quando estava me aproximando do local da ocorrência do dia anterior, reduzi os passos procurando “fazer um pouco de hora” na esperança de presenciar a repetição do fato. Para minha imensa felicidade realmente vi um ônibus subindo a rua do Oratório, passando de seu ponto de parada normal e parando no mesmo local do dia anterior.
Embora esperasse por esse momento, lembro-me que, mesmo que possa parecer incoerência, fiquei surpreso e estático, mas logo me recobrei e atravessei a rua para tentar ver mais de perto quem era a moça que havia sido contemplada com aquela gentileza, mas, infelizmente pude vê-la apenas de relance, pois rapidamente ela ingressou em uma casa. Pelo menos parte do mistério havia sido desvendado. Pensei comigo: amanhã continuo a minha investigação.
Mas, o dia seguinte era um sábado. Eu não tinha aula e acreditava que a “moça do ônibus” também estaria de folga, o que me fez adiar meus planos para a segunda feira.
E como demorou para passar as horas daquele fim de semana e as aulas da segunda feira!
Já era tradicional, após as aulas da segunda feira, um bate-papo com os amigos, no barzinho do Colégio São Judas Tadeu, para analisar os jogos de futebol do domingo. Mas, naquela segunda eu tinha assunto mais importante. Por isso, mesmo diante dos protestos dos companheiros de debate eu rapidamente me dirigi para o meu local de observação.
Não demorou muito e lá vem um amarelinho subindo a Oratório mas, para minha surpresa, parou no seu ponto normal. Cheguei a ficar desiludido. Mas a desilusão foi-se embora rapidamente, pois o coletivo andou mais alguns metros e fez a habitual parada defronte a possível residência da misteriosa moça.
Desta vez não perdi tempo. Tão logo percebi que o “amarelinho” diminuía sua velocidade atravessei rapidamente a rua e coloquei-me estrategicamente numa posição de onde eu pudesse observar melhor.
Nunca mais esqueci essa imagem : a moça descendo elegantemente as escadas do ônibus, com um sorriso encantador agradece ao motorista, caminha em direção a porta daquela casa e nela penetra, fechando a porta atrás de si e diante de um atônito adolescente.
Depois disso, tive a felicidade de presenciar essa cena por mais algumas vezes até que, alguns dias depois, nenhum ônibus lá parou. Nem no dia seguinte. E nem no outro. Armei-me de coragem e indaguei para um vizinho. Eles mudaram – disse-me ele. Com um misto de decepção e frustração, limitei-me a agradecer pela informação e ir para casa.
Ao longo dos muitos anos aquela imagem nunca me saiu da cabeça. Eu jamais soube mais nada a seu respeito. Hoje, recordando aqueles misteriosos momentos, eu percebo que nem ao menos eu sei o nome daquela linda moça da rua do Oratório.
Eduardo Galgrisi
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”As polpetas da nonna Carmella” style=”fancy”]Todo descendente de italianos aprecia uma boa mesa. O alimento, para os “oriundi” tem até um aspecto religioso. Me lembro, por exemplo, que quando eu não queria comer a ponta mais endurecida de um pãozinho, minha nonna me fazia pedir desculpas a Jesus e beijar aquele “toco” de farinha assada, antes de depositá-lo no lixo. Mas, na realidade, somos mesmo é apaixonados pela arte da culinária! Eu particularmente considero mágica o que alquimistas do fogão conseguem fazer partindo de ingredientes simples como, por exemplo, transformar carne moída, pão amanhecido e temperos em deliciosas polpetas, que aqui na nossa República da Mooca são conhecidas como “porpetas”. E, em se falando de porpetas, tenho que citar uma pessoa: mio zio Domenico. Eu poderia dizer que ele é viciado nessas pelotinhas de carne. Come porpetas com arroz, com “pasta”, com feijão branco, com favas, com polenta, com pão e, principalmente, fritinhas acompanhando cervejas muito geladas.
Pois bem, as melhores porpetas da República da Mooca eram perpetradas pela queridíssima nonna Carmella, uma santa “signora” que veio para nosso bairro juntamente com seus pais, em 1912 quando tinha seus 5 anos, direto da cidade de “Napoli”, na velha e querida Itália. Não sei direito qual era o segredo da nonna, mas nunca comi uma porpetinha como aquelas que ela preparava.
Como eu já disse, zio Domenico era fã de carteirinha dessas iguarias. Vivia arrumando pretexto para visitar nonna Carmella, com a única intenção de devorar várias delas. Certa vez, chegou para a velha senhora com a seguinte história:
-Nonna, a signora num imagina quem quer experimentar suas porpetinhas. O Bispo Almário Bernardetti!
Nonna Carmela era uma senhora católica beatíssima, dessas que acordam uma hora antes para fazer suas orações diárias, freqüentadora da missa das sete e que, após a morte de seu marido, tornou-se senhora de um único homem: Jesus Cristo. Pois, imaginem a honra que seria para ela, receber em sua humilde casa, na rua Guaratinguetá, o Bispo da região?
É óbvio que tudo não passava de uma armação de zio Domenico. Bispo coisa alguma. O ilustre clérigo seria interpretado por Jair Fumaça, um franzino e pardo rapaz, nascido e criado no Rio de Janeiro, mecânico de automóveis por profissão, e um verdadeiro azougue jogando pelo Parque da Mooca no Desafio ao Galo.
Uma das qualidades de Domenico era sua popularidade. Meu tio transitava em qualquer esfera com uma naturalidade de fazer inveja. Era amigo de jornaleiros (nunca comprou um jornal na vida), donos de botecos, donos de pizzarias, políticos e…do sacristão da igreja. E não é que ele conseguiu arranjar um traje que caiu como uma luva? Após pequenas adaptações, como por exemplo um pedaço de cortina escarlate cortado grosseiramente para se passar por uma estola, parecia mesmo ser a batina de um bispo. Com um tanto de talco nos cabelos e uma câmera de bola de futebol cortada para se passar por um barrete, o bispo estava pronto. Domenico havia marcado a visita para as 4 da tarde de domingo, pois nesse dia nosso glorioso Juventus estaria disputando o primeiro lugar da segunda divisão do Paulistão, com transmissão ao vivo pela Record.
Por volta de 15:30, Carmellina começou fritar as pelotinhas. O aroma se espalhava pela rua. Quando Domenico e Jair chegaram, já havia bem umas 3 dúzias de porpetas muito bem fritinhas. Bateram palmas à porta e a querida nonna veio recebê-los esbaforida, trajando seu melhor avental. Ao ver o suposto bispo, emudeceu. Sem poder pronunciar uma palavra, curvou-se e beijou sua mâo. Para sua surpresa, a mão do clérigo tinha um “aroma” esquisito..
– Ma, signore bispo, perche sua mano astá cherando gasolina?
E o Fumaça, com um arrastado sotaque das areias de Copacabana:
– Sabe o que é, coroa, andei dando uns trato na pintura das “estáutas” da igreja, e limpei minhas “mão” com gasosa!
Nonna Carmella chama zio Domenico de lado e diz:
– Domenico, má che sutaque mais isquésito.
E ele:
– Calma, nonna, é que antes de virar bispo, Dom Almário trabalhou durante muito tempo como padre no Rio de Janeiro.
– Va via, iammo mangiare!!!
Dito isso, nonna Carmela volta à cozinha para concluir o preparo das porpetinhas. Enquanto isso, Domenico liga a TV e vai à geladeira buscar uma Antárctica geladinha, dizendo:
– Signori bispo, aceita una birra?
E o clérigo:
– Todassssssss…
Nona Carmela , já meio desconfiada, grita da cozinha:
– Don Almário, venha experimentá una porpeta fritinha na hora!
Muito a contra gosto, Jair Fumaça vai até a cozinha (ele estava bem ao lado da Antarctica geladíssima). Nonna Carmela espeta uma porpeta com um garfo e entrega pra ele. O rapaz sente seus dedos queimando e instintivamente, pra se livrar da “pelota em brasa”, enfia tudo na boca de uma vez. Na primeira mordida, aquele singelo manjar transformou-se num verdadeiro cometa incandescente. Parecia que o falso bispo tinha um bocado de lava quente na boca. Nosso amigo começou a pular feito saci. O talco em seus cabelos formou uma verdadeira nuvem, fazendo com que ele espirrasse como louco. Num desses espasmos, o barrete de câmara de futebol voa de sua cabeça direto para a frigideira. Quando a borracha começa derreter, nonna Carmella grita:
– Ma, chi é questo allora?
E Domenico rapidamente diz:
– Até a Igreja tem que se modernizar. Agora os barretes são feitos de material biodegradável…
– Ma che cosa de genti mundanna… Isso num’né cosa di Christo. I qüela nuvem de poeira branca qui saiu da cabeça dele?
– Nada não, nonna, foi uma nuvem de angellini que desceu do céu para abençoar suas porpetas!
– Salve Dio mio… Io non mereço tanto!
O clima voltava ao normal e Domenico já salivando disse:
– Primo mangiare, dopo parlare!
Estavam retornando todos para a sala quando minha prima Gioconda entra pela porta da frente. Pode-se dizer que ela era uma garota “cheia de predicados”. Foi abençoada por Deus no quesito boa forma. E nessa tarde Gioconda havia caprichado. Vestia uma minissaia cor-de rosa que deixava à mostra suas pernas bem torneadas e, para coroar aquela escultura, um “top” branco semi transparente.
O “bispo” Jair vinha andando meio absorto, ainda convalescendo da queimadura na boca, quando de repente dá de cara com aquele monumento. Gioconda, por sua vez, ajoelha-se e pede a benção do padre. No entanto, ao fazer isso, um anel que usava se enrosca na batina, puxando-a para baixo. Zio Domenico corre em direção ao falso bispo para tentar evitar uma desgraça maior e, numa manobra estabanada, tentando preservar os trajes do clérigo, acabou arrancando a batina inteira. E, para completar a cena dantesca com chave de ouro, Jair estava peladão. Uma coisa horrorosa aquele mulato magrelo, quase sem pelos, nu e de meias e sapatos pretos.
Nonna Carmella gritou apavorada:
– Santa Madre, il padre é “nudo”! Disgraciatto! Farabutto!
Zio Doménico, antes de se escangalhar de tanto rir diz:
– Ma, bello, o que é que você tem na cabeça? Ma nem um “shorts” ‘ce botou meu?
E o Fumaça:
– Po, “merr…mão”, eu tava no maior abafo com esse vestidão preto e resolvi ficar à vontade.
Enquanto Gioconda olhava estarrecida para aquele sujeito horroroso e pelado, nonna Carmela decidiu acabar com a festa. Com uma pontaria tão certeira como jamais eu vira, de fazer inveja ao saudoso Oberdã Catani, ela começou a atirar as porpetas contra o “disgraciatto” do Fumaça, sem errar uma única. O pobre coitado saiu correndo pela Rua Guaratinguetá, pelado, trajando apenas meias e sapatos, com porpetas voando contra sua cabeça, numa velocidade tal que, em questão de segundos, já alcançava a Rua da Mooca. Desde esse dia, ele desistiu da mecânica e tornou-se atleta velocista no Clube Atlético Juventus! Ganhou até uma São Silvestre, acreditem!
Se você ficou curioso para provar as porpetas, aí vai a receita:
1 kg de carne moída, de preferência carne magra
3 pãezinhos amanhecidos, picados grosseiramente (se você usar pão italiano, vai ficar muito melhor)
Uma gema de ovo pra dar liga
2 dentes de alho amassados
Uma cebola pequena picadinha
Umas 12 azeitonas verdes descaroçadas e picadas
Cheiro verde também muito bem picado
3 pires de chá, cheios de um bom queijo parmesão, peccorino ou mesmo provolone ralado
Sal a gosto (não use muito sal pois o queijo já é salgado)
Como fazer:
Em uma vasilha, deixe o pão de molho em água, por mais ou menos meia hora.
Retire o pão, jogue a água fora, esprema muito bem e devolva para a vasilha juntamente com a carne moída e a gema.
Acrescente os outros temperos, misturando tudo vigososamente como se fosse massa de pão.
Cubra a vasilha e coloque na geladeira por mais ou menos uma hora.
Retire, faça pequenas pelotinhas (2 a 3 cm de diâmetro) enroladas nas palmas das mãos e frite até dourar em uma frigideira funda, com bastante óleo quente.
Deverão ficar deliciosas, mas garanto que não chegarão aos pés daquelas feitas pela nonna Carmella.
Luiz Antonio Caropreso
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Um grande amor na juventude : Rosa Serrano Galera” style=”fancy”]Não. Não se trata de ninguém importante.Apenas meu primeiro amor. Ela tinha entre 20 e 21 anos, eu, entre 16 e 17. Sua família imigrou da Espanha para o Brasil, fugindo da Guerra Civil e daquele assassino, facínora e genocida , Generalíssimo Francisco Franco, por la grácia de Diós, como gostava de ser chamado. Responsável pela morte de milhares de libertários, inclusive Federico Garcia Lorca, poeta maior.
Fixaram-se no meu bairro, Mooca, como tantos outros espanhóis que para aqui vieram morando numa casa enorme, mas, habitação coletiva, na rua Madre de Deus, Alto da Moóca, um pouco acima do Cine Aliança. Ele, o pai, era um grande músico. Um grande violonista de guitarra flamenca. Quando o conheci, já beirava os oitenta anos. Era alto, magro, cabelos brancos sempre revoltos e de um grande bom humor. Quando tocava, parecia que dormia sobre o instrumento, que ficava encostado com seu bojo junto ao seu peito, que era para ouvir melhor com os ouvidos e com o coração, parecia. Dedos finos e alongados, que se repetiram em sua filha mais nova, Rosa. Tinha um filho, que se chamava Pedro e outra filha mais velha, que agora me foge o nome. Tinha sido muito famoso em sua terra, onde era apelidado de “El Niño Socato”. Em Sevilha e região, é comum chamar-se os ídolos de Niño. Vide “Niño de Utrera” e outros. Quantas noites fiquei ouvindo aquele grande artista, segurando na mão de sua filha.
Naquele tempo, dançava-se muito. Não se tinha carro, não havia motéis, os hotéis não permitiam a entrada de casais, portanto a única maneira de se ter uma mulher nos braços e vice-versa, era dançando. Pois foi num baile que conheci Rosa. Era um baile de formatura que fui não sei convidado por quem e ela dançava só com um cara que parecia muito com o hoje conhecido ator Marcos Palmeira, só que com um cabelo que parecia abotoado atrás, cheio de “Gumex”, que se usava para fixar bem o cabelo, deixando no alto,um topetinho despenteado e atrás aquele cabelo cruzado. Não fui muito com a cara dele, mas, a dela foi na hora uma mistura química que nos atacou aos dois. Amor à primeira vista, se dizia.
Não sei quem dos amigos que estavam comigo, disse a ela onde costumávamos dançar aos domingos à tarde. Era sábado à noite, esqueci-me de dizer. Todos os domingos à tarde, dançávamos no GGPTB, um clube de futebol amador, do qual eu era diretor social, que fazia de tudo, inclusive varrer e encerar o salão, passar parafina, cuidar das carteirinhas dos sócios arrumar músicos para os bailes de fim de semana etc. O clube ficava na rua da Mooca, altura do número 2.300, quase em frente à rua dos Donatários. A matinê, como era chamada, ia das três da tarde, às sete da noite. O salão ficava no primeiro andar. Havia muitas escadas para se chegar a ele. Ficava na horizontal, onde havia muitas janelas, dois banheiros (um para eles e outro para elas) um pequeno escritório numa das pontas que era utilizado como secretaria. Naquele domingo à tarde choveu muito. De repente, salão quase vazio por causa da chuva, ouço passos subindo apressadamente as escadas. Vou olhar pela mureta e quem vejo? Ela, num vestido azul claro, rosto e cabelos molhados, vestido colado ao corpo que lhe acentuava ainda mais suas lindas formas, que ao me ver deu aquele lindo sorriso como quem tivesse achado um tesouro. Fui logo ao seu encontro e , quase sem falar nada, abracei-a e no seu ouvido disse :
– agora,não vou querer mais perder você de vista.
– …eu também, disse ela.
Dançamos a tarde toda. Rosto colado, cantávamos, um no ouvido do outro, todos os sucessos de Gregório Barrios, o ídolo de nosso tempo : …Final, de um sueño que fué triste realidad/quando despertamos/”Somos” dos seres que em uno que amando quedamos/Um algo se interpone/ para poder amarnos/no se no lo comprendo/pero es la realidad/me quieres y te quiero/me adoras y te adoro/pero apesar de todo/me deves de olvidar/,,, E por aí ia, nosso idílio, ao ritmo dos boleros do Gregório.Dançamos tanto tempo juntos, que já parecíamos um só . “Samba –quadradinho”, ”Miudinho”, “Gafieira “ e tudo mais. Ainda não haviam inventado o rock, mas, se já tivessem, não seria problema .
Não ficávamos nem um dia sem nos ver. À noite, dia de semana, íamos para o nosso lugarzinho de costume: sentar-nos na mureta da Maternidade da Mooca, que ficava num lugar bem escurinho de avenida Paes de Barros, próximo à casa dela. Lá, todas as noites experimentávamos os prazeres do sexo, livre e descontraídos , mas irresponsavelmente descontraídos. Até que um dia, e que dia, ela me disse que estava grávida.Vamos dar um jeito, disse-lhe eu. Minha avó, vai querer que a gente se case, seus pais também. E como vamos viver se com dezessete anos não tenho nem como me sustentar, imagine uma família. A solução partiu dela. Um fã do pai dela era médico e poderia dar um jeito. E deu. Dias depois, num hospital em que ele trabalhava e que ficava na Av. Angélica, eis-nos lá. Ela e eu, para cometer a bobagem maior, um aborto. Foi rápido,já no fim da tarde tudo estava resolvido. Ele chamou-me de lado e pegando no meu braço, levou-me até um pequeno laboratório do próprio hospital. E disse mostrando-me um grande frasco com éter, ou coisa parecida. Eis seu filho. Olhei meio que enojado,e disse : isso é meu filho? Parece um sapinho. Tinha pouco mais de um palmo e segundo ele, seria homem e agora estava ali num vidro de formol, éter, sei lá. Peguei Rosa pelo braço e fomos de volta para a Mooca.
Continuamos nos vendo, cada vez mais. Agora até na hora do almoço, ela passava lá em casa e conversava com minha avó Marianna. Rosa me havia dito que um tal de Joãozinho, empregado da farmácia do bairro, vivia dando em cima dela. Como eu estava precisando tomar umas injeções de “Biocalcino”, que ninguém é de ferro, fui até a farmácia e aproveitei para tirar satisfações com aquele projeto de gente.Era um baixinho que aplicava injeções à domicilio e atendia no balcão, sempre com um sorriso de plástico, muito próprio das pessoas simpáticas”.
Não sabia quanta maldade morava naquele animalzinho tão pequeno. Vítima de uma leve infecção, tive que me servir daquela farmácia.Tinha que tomar, segundo o médico, três injeções, pela ordem: a mais fraca, a intermediária e por fim a mais forte . Sabem o que fez o tal de Joãozinho que vivia dando em cima da minha Rosa ? Inverteu a ordem e foi logo me dando de cara a mais forte. Tive muita febre. Mais de 40 gráus. Até delirei. Minha avó chamou o médico, que me disse que poderia até ter morrido, não fosse socorrido à tempo. Rosa ficou ao meu lado o tempo todo.
Quando fiquei bom,fui atrás dele e cobri-o de porradas.Ele só dizia,foi sem querer,foi sem querer.Sumiu da Mooca.
Outro acidente médico me aguardava. Agora,eu já estava trabalhando na Vasp, na Rua Líbero Badaró. Um colega de trabalho, a quem contei sobre a tal infecção, me disse que tinha tudo para ser uma doença venérea. Mas como ? disse pra mim mesmo. Eu só tenho relações com a Rosa, será que peguei dela ? À noite conversamos seriamente. Ela chorou muito eu muito nervoso, parece até ameacei bater nela.
Foi aí que, imaturos, nos separamos de vez. Procurei o Dr. Modesro Pinotti, que tinha consultório na rua José Bonifácio, perto da Vasp, onde eu trabalhava. Ele me disse : menino, você não teve recentemente nenhuma doença venérea.O que você teve, foi um tipo de Herpes, que , com este remédinho, vai passar logo. Animado, fui logo procurar pela Rosa. Ela não morava mais lá. Havia se mudado não se sabia para onde. Passou-se um ano, mais ou menos e nunca mais a vi. Disseram-me que até tinha se casado, coisa que eu também estava prestes a fazer com uma também freqüentadora do mesmo baile, que, por ter engravidado, tive que casar, segundo a vontade de minha avó e da mãe dela, minha primeira mulher, que estava esperando uma filha minha.
Depois de casado, prestes a me mudar para o Rio de Janeiro, onde sabia ficaria por muito tempo, uma amiga comum me deu o endereço da Rosa, que havia sim se casado. Não sei bem onde era. Lá pelos lados da Água Rasa. Cheguei lá, uma cerquinha de ripas, um recuo enorme e lá no fundo uma casinha confortável. Abri o portãozinho, fui entrando terreno adentro e eis que surge na porta da cozinha, aquele mesmo sorriso que vi de rosto molhado na escada do salão de baile. Continuava linda e sem que eu dissesse nada, foi dizendo: Eu sabia que você viria. Eu estava te esperando. Ela me disse que havia se casado com o Julinho, que conheceu na infância, tinha três filhos. Perguntei dos seus pais, me disse que morreram, seu irmão era barbeiro na cidade e eu disse que tinha vindo apenas me despedir e que iria morar no Rio de Janeiro. Desejou-me boa sorte. O menino mais velho dela brincava com uma bola no meio do terreno.
Como é o nome dele ? – perguntei eu…
– Walter,disse-me ela. Nunca mais a vi.
Foi a mulher que mais amei, depois de Déa com quem casei e vivo há 43 anos.
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Walter Silva
Conheça mais sobre este mooquense, na página de “Famílias e Personalidades”
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Tempo di Bambino” style=”fancy”]Alora… vamo giunto lembra dus tempi di bambino.Auuuu!… dexa io fala outra coza: nó adianta tenta
quere, naqueli tempino, non si dá mai pra vortá!
Come me lembro!
Da Móca e di mia rua,
do tempo di manamula,
tempo di capuxeta,
tempo di mãe di rua…
Come me lembro!
do tempo do pique-pique,
do tempo di iscondi-iscondi…
da bola… da bicicréta,
do bafo na figurinha…
Come me lembro!
Do tempo di roda pione,
do tempo di giugá bulinha.
Tempo de istilingue,
tempo de marelinha.
Acho qui nessuno isquéci,
do tempo qui si fô bambino,
di zuá… come chicréti,
virá Zorro, sê mocino.
Tempo do patinete,
do carrinho di rolemã,
tempo qui, sem quere,
si batia im uma irmã.
Qui pena: os bambini di oggi,
nó brinca… non gióga mai.
Fica só nas máquina di faze loco:
no vídeo-queime, ô computado…
Crianza nó é mai crianza,
elas alora viro robô.
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GUIDO PIVA
MAI CUNHECIDO COME
PIMPINELLO RIZONI
Conheça mais sobre este poeta Mooquense, na página de “Famílias e personalidades”
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”A turma da Mooca na Festa de casamento” style=”fancy”]Como já tive a oportunidade de comentar, a Mooca adotou gente de todas as partes do mundo como seus cidadãos. Uma comunidade bastante representativa entre nossos habitantes é a lituana.
Se você for convidado a comparecer em uma festa organizada pelos lituanos, não titubeie. Com certeza, nunca mais se esquecerá. Muita música, danças típicas, muita bebida e gente bonita. Quem vê aquelas pessoas se divertindo, cantando, dançando e bebendo, não consegue imaginar o quanto esse povo sofreu em sua terra natal, oprimido por outras nações e por governos tiranos.
Bem, um certo primo meu, o Gennaro (Rino entre os íntimos) era muito amigo de uma turma de lituanos que participava de um grupo de danças folclóricas. Eu nunca vi um povo beber tanto! Entornavam vodka como eu bebo cerveja, e bebiam cerveja como a gente bebe água. Mas havia uma bebida, parece que originária da Lituânia chamada “krupnikas” (não sei se é assim que se escreve, mas com certeza, o som é esse). Parecia ser um destilado cítrico, adocicado e forte, muito forte. Quando experimentei, fiquei meio tonto com apenas um cálice desses de licor!
Mas voltemos ao primo Rino. Ele estava namorando havia uns 2 meses com uma espanholinha linda, a Isabel, que conhecera na Faculdade São Judas Tadeu. A garota era uma graça. Morena, bonitinha, gostosinha e super discreta! Tudo o que um rapaz de 18 anos deseja!
Um belo dia, Rino recebe um convite de casamento. Uma de suas amigas lituanas, a Sonia Patrouskas, resolveu casar-se de uma hora pra outra.
E com um carioca surfista bem moreno; como se diz hoje, um negão! A grande maioria dos lituanos é constituida de gente com a pele bem clara e cabelos loiros. Soninha e o carioca, que se não me engano chamava-se Ricardo, contrastavam feito marfim e ébano (só pra parodiar o Paul).
É evidente que o Gennarino iria ao casamento, e aproveitaria a ocasião para apresentar sua linda Isabel para os amigos lituanos. Combinou com a namorada que, após a festa, esticariam a noite em um motel. Ele mal podia esperar pelo dia em que iria conhecer, no sentido bíblico, aquela gostosura de garota.
No dia do casamento, meu primo foi buscar a namorada. Ela estava deslumbrante, dentro de um lindo e sensual vestido. Quando trocaram um beijinho, ela cochichou no ouvido dele:
-Hoje a noite vai ser maravilhosa! Praparei uma surpresa pra você!
-Surpresa? Me conte!!!
-Estou sem calcinha!!!
Imaginem vocês o estado em que ele ficou! Não conseguia pensar em outra coisa:
-É hoje…é hoje!!!
Pois bem, foi um lindo casamento na igreja de São Pedro na Vila Zelina e, na seqüência, o mais esperado: A Festa.
Os lituanos mantinham um salão de festas (que existe até hoje) na Rua Lithuânia, uma travessa da rua do Oratório, na Mooca. Quando havia qualquer comemoração ali, a Antártica (cervejaria que tinha suas instalações em nosso querido bairro) providenciava um tipo de chopp muito especial, com sabor um pouco mais forte ao que estamos acostumados, de uma linda cor dourada, espuma muito firme e (essa era a parte que realmente interessava aos lituanos) com o teor alcoólico bem maior.
Ao chegar à porta do salão de festas, Rino e sua namorada foram recepcionados pelo amigo Baltazar com duas canecas daquele maravilhoso chopp. Isabel, que não gostava de cerveja, adorou a bebida e tomou em um só gole! Os dois estavam adentrando o salão quando Irena, outra amiga, oferece uma vodka da Lituânia ao casal. Meu primo já conhecia aquele forte destilado e recusou; no entanto Isabel, embalada pelo chopp, resolveu “encarar”. Na realidade, Rino só pensava nos momentos de prazer que iria passar com sua linda namoradinha espanhola.
Em pouco tempo, formou-se uma roda de amigos junto ao Rino. Enquanto todos riam, bebiam e contavam piadas, meu primo percebeu que Isabel havia desaparecido. Pelo salão, circulavam várias bandejas com aquela bebida que citei no início: a famigerada “krupnikas”. E não é que Isabel apaixonou-se pelo destilado!!! Deve ter tomado umas cinco ou seis doses!
Enquanto meu primo procurava desesperado por sua namorada, a “lituanada” começou a dançar ao som de músicas folclóricas lituanas, russas e até polcas. E foi justamente na hora da polca que um dos amigos, o Balta, cutucou Gennarino e falou:
-Rino, aquela ali no palco não é sua namorada?
Ele olhou para o palco e lá estava Isabel, descalça, ladeada por umas 10 loiras tentando dançar a tal da polca.
Todas as garotas, exceto Isabel, pertenciam ao grupo de danças folclóricas e estavam mais do que habituadas àqueles passos. A espanholinha, no entanto, estava completamente perdida, além de bastante embriagada. Resolveu adaptar uns passos que mais pareciam os de uma bailarina do Moulin Rouge dançando “cancan”! E não é que a mocinha incorporou a dançarina de “cancan” e ameaçou levantar o vestido para dar aqueles tradicionais “chutes” no ar!!! Rino ficou pasmo, pálido e partiu ao encontro dela gritando:
-Não Isabel! Catso, esqueceu que você está sem calcinha!
Tarde demais! Na empolgação aditivada pelas vodkas e krupnikas, Isabel expôs à comunidade lituana inteira aquilo que nem meu primo havia visto ainda!
Como um bom italiano, Rino subiu rapidamente no palco e arrancou sua namorada de lá. A espanholinha embriagada dizia:
-Massh amorzhszhinho…eu eshshtou me djivertchindo tanto!
-Vamos embora daqui que você ainda tem que fazer um “showzinho” particular só pra mim!
Dito isso, Gennarino despediu-se dos amigos com um aceno de mão e literalmente carregou Isabel para o carro. Colocou a jovenzinha ao seu lado e partiu para um motel, conforme haviam combinado!
Enquanto o carro serpenteava pelas ruas da Mooca, ele percebeu que Isabel estava ficando muito pálida. Não, ela estava ficando é verde!!! Rino virou-se pra ela e disse:
-Amore, você está se sentindo bem:
Ela acenou a cabeça negativamente e disse apenas:
-Hum…hum!
-Quer que eu encoste o carro?
E ela acenando com a cabeça, agora concordando:
-Hum…hum!!!
Rino encostou seu carro no meio fio e falou:
-Principesa, você quer vomitar?
A resposta foi um novo aceno concordando.
Como não havia nenhum banheiro acessível nas proximidades, meu primo achou que seria melhor resolver aquela situação ali mesmo. Desceu do carro, dirigiu-se para o lado de Isabel e, gentilmente, abriu a porta para que ela pudesse chegar às vias de fato. Isso feito, a garota vira-se para fora do carro, começa a se abaixar e…cai de cara no chão abrindo uma belo rasgo no queixo! Rino não sabia o que fazer. Ela estava bêbada e desmaiada! Decidiu, sabiamente, esquecer o Motel, colocou Isabel dentro do carro e voou para a casa dos pais de sua amada. Quando explicou o ocorrido para a futura sogra, Dona Assuncion, esta entrou no carro e disse:
-Vamos para a clínica do Dr. Gimenez.
Dr. Gimenez era médico da família há pelo menos 15 anos e tinha uma clínica muito bem equipada no alto da Mooca, razoavelmente próxima da casa de Isabel.
Ao chegar, Rino providenciou uma pequena maca, onde acomodou Isabelita, e todos entraram juntos numa das salas de primeiros socorros onde uma enfermeira, dessas que tem cara de enfermeira de filme de terror, aguardava com uma seringa na mão. Meu primo não acreditava naquela situação. Parecia que ele estava protagonizando a última versão de Sexta-feira 13. E o pior é que ele sabia que iria ficar na mão! A maravilhosa noite de amor tinha se diluído em algumas doses de Krupnikas!
Além do corte no queixo, Isabel apresentava algumas escoriações nos joelhos e braços. A enfermeira olhou para a garota e deu seu diagnóstico:
-Isso é pura bebedeira! Vamos aplicar glicose na veia e verificar se ela machucou-se em algum outro lugar. Após a aplicação intra-venosa, partiu pra examinar o que restava da garota. Tentou inutilmente desamarrar um lindo cinto dourado que dava acabamento ao vestido de Isabel. Não teve dúvidas em sacar de uma tesoura cirúrgica e cortar o belo adereço. Sem pedir licença a ninguém, fez menção de levantar o vestido da espanholinha para examiná-la. Novamente Rino empalideceu: ” a calcinha…ou melhor, a falta dela”!!!
Meu primo tentou sair daquela sala, mas não houve tempo. A bruxa de branco (era assim que ele estava vendo aquela enfermeira) foi mais ágil e, num gesto súbito levantou o vestido de Isabel. A mãe da garota, ao ver “aquilo” sem a devida veste, fuzilou Rino com os olhos e disse:
-Usted “estrupô” minha niña!!! Perro desgraçado, cabrón!
-No, io voglio bene Isabel. Ma ela ficou bêbada antes que eu conseguisse levá-la pro Motel!
A emenda ficou pior que o soneto. Dona Assuncion pegou o sapato de Isabel e sentou na cabeça de Genarinno, abrindo um rasgo em sua testa!
Foi uma recuperação solitária. Depois daquele dia, o casal só conseguia se falar por telefone. Isabel ficou proibida de voltar a ver o pobre Rino que, além de não ter conseguido levar sua namorada pro Motel, acabou ficando com fama de estuprador!
Mas isso não durou muito tempo. Voltaram a namorar após algumas semanas e hoje estão noivos, de casamento marcado. E para que tudo termine bem, Isabel fez Rino prometer que na festa ninguém vai servir krupnikas, nem tocar polca.
Luiz Antonio Caropreso
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Os embalos da Turma da Mooca” style=”fancy”]Quando da época de meus 18 – 19 anos, nossa turma tinha um programa infalível todos os sábados. Saíamos de carro, geralmente eram fuscas 1500cc de uma cor bem esdrúxula (abóbora, mostarda ou um verde fosforescente), com rodas cromadas e pneus “tala-larga”, vidro bolha e palhetas cromadas no limpador de pára-brisas. Esses carros eram rebaixados até quase encostar no asfalto tanto que, alguns de nós, tinhamos que conduzir o veículo em zigue-zague para desviar de pedras ou quaisquer outros objetos que ultrapassassem em altura uma caixa de fósforos.
A exceção era o Modesto Arcângelo. Rapaz de sorte. Para se ter uma idéia, Modesto nasceu no navio quando sua família migrava para o Brasil, oriunda da Itália. Mas a família Arcângelo acabou por adaptar-se muito bem à Mooca e ao jeitinho carcamano de acumular riquezas. Tornaram-se os maiores vendedores de joias aqui de nossa República. Agora, diga-se de passagem que eles trabalhavam muito, muito mesmo. Apesar de muito rico, seu nome adjetivava sua personalidade. Ele era um cara modesto, simples e um grande amigo. Aliás, meu melhor amigo durante muito tempo. No entanto, em nosso comboio de automóveis, destacava-se sua Puma GTB zerinho zerinho.
A carreata da turma da Mooca, começava na Rua São Rafael, tradicional logradouro mooquense, circundava a Igreja de São Rafael, descia um trechinho da Rua da Mooca, adentrava a Radial Leste e seguia subindo pela Rua da Consolação. Daí, desciamos a Rua Augusta culminando na Rego Freitas. Nosso objetivo: encher o carro com moçoilas da noite (sem discriminação) e desfilar pela cidade. As garotas ficavam semi-nuas, e posicionavam-se sobre os automóveis expondo seus predicados, como se estivessem em um carro alegórico no Sambódromo, defendendo as cores da Mooca.
É evidente que dentro dos carros nem tudo era exibicionismo inocente. Nossos amigos ficavam mesmo é se aproveitando daquela “azaração” com a mulherada!
Bem, num desses sábados, o Modesto apareceu sem sua Puma. Ele havia se envolvido num pequeno acidente e o carro estava no funileiro. Pra não perder a farra, seu pai cedeu, após muita pressão, uma Alfa Romeu dourada, reluzente que acabara de sair da concessionária. Aqui cabe um comentário. O pai de Modesto era um senhor de 1,48m, italiano de uma província do “Regio di Calabria”, que não costumava nem falar. Era um sujeitinho sisudo, austero e, digamos assim, meio explosivo em seu temperamento. Contavam-se várias histórias sobre as violências praticadas por aquele carcamano baixinho. Um olhar do Sr. Guido era o bastante para acabar com a Festa de San Gennaro.
Bem, fizemos nosso trajeto de costume, e quando chegamos na Rua Rego Freitas, as “moças da noite” vieram em nossa direção. O comboio era encabeçado pelo Salaminho, seguido por mim, mais três carros e enfim o Modesto em sua Alfa Romeo. De imediato, Salaminho colocou uma Drag Queen (que naquela época ainda era conhecido por travesti mesmo) maravilhosa sobre o capô de seu Fusca, e começou a descer a rua lentamente. Eu fiz o mesmo com duas garotas gêmeas que adoravam exibir seus 4 seios idênticos. Aquilo era uma obra divina.
Olhei para trás e vi que o mesmo acontecia com nossos outros amigos, mas não conseguia saber onde havia se metido o Modesto. A Alfa desaparecera! Depois de mais ou menos 2 horas sem notícias de nosso amigo, resolvemos voltar pra Mooca.
Quando estávamos subindo Rua São Rafael, pudemos avistar a Alfa Dourada no topo da Rua (era uma Rua sem saída, com um “coup de sac” no final onde estacionávamos nossos carros e ficávamos papeando até altas horas). Ao me aproximar do carro, vi que Modesto estava sentado ao volante chorando compulsivamente!
-O que aconteceu, velhão?
-Luigi, vc não vai acreditar! Sabe a Samantha Hot Ass (era uma travestí famosíssimo que dizia ter o “derriere” mais quente da região).
-Sei claro, ela é nossa velha chapa!
-Pois é, ela cismou de sentar sobre o capô do carro do meu vechio.
-Sim e você??
-Orra meu, falei pro “traveco” que no meu carro tudo bem, mas no bólido de mio babbo, nunca, nunquinha!
-Sim, e ele, quero dizer, ela…
-Ela falou:”Amor, esse bumbum nunca arranhou nem maõzinha de bebê. Só uso lingeries de sêda. Agora, vc quer saber o que riscaria seu carro?
Esse anel de brilhantes que eu acabai de ganhar do Delfim…” E começou a riscar a porta da Alfa. Quando as outras “colegas” viram a cena, correram pra cima do carro e puseram-se a chutar a porta com o bico dos sapatos! Um horror.
Olhei a porta do carro. Parecia o fundo de um estande de tiros, só que de baixo calibre! Aquela porta dourada tornara-se uma chapa disforme, toda riscada e “picotada”.
Bem, como não havia jeito, fomos cada um pra sua casa, preocupados com o que aconteceria ao querido Modesto. Eu imaginava encontrá-lo, no dia seguinte, todo quebrado, roxo e de muletas.
Dia seguinte, domingão! Todo domingo, após a missa das 11, a turma sempre se encontrava no Bar do Elídio (na Rua Izabel Dias) para tomar um aperitivo antes do almoço!
Surpreendentemente, o Modesto aponta na esquina. E dirigindo a Alfa!
Quando estacionou o carro, corremos ao seu encontro preocupados com a integridade física do rapaz. Nada, nem um arranhão! A Alfa Romeu, entretanto estava muito mais amassada do que havíamos visto na noite anterior. Virei pro Modesto e disse:
-E aí, seu pai não te deu um cacete?
-Que nada…
-Mas o que houve com o carro?
-Quando cheguei em casa o vechio estava acordado. Pra não prolongar minha agonia fui logo contando que tinha acontecido um “probleminha” com o carro. Ele saiu na rua de cuecas e, ao ver a porta, ficou mais vermelho que molho al sugo. Quando eu falei que tinha sido um travesti, meu pai deu uma bordoada na minha orelha e disse:
-Ma tu sei un incompetente! Primo perque nem mulher sabe escolher.
Ao falar isso, preparou um pontapé “daqueles”. Eu fechei meus olhos e fiquei esperando levar um chute no traseiro que me deixaria sem sentar por duas semanas. Foi quando ouvi um enorme estrondo vindo da direção do carro. Abri meus olhos e vi que ele havia chutado a porta da Alfa com tanta violência que quase rasgou a lataria. E continuou dizendo:
-Dopo, é incompetente porque nem amassar direito o carro consegue. Agora sim, do jeito que está o seguro vai pagar!
Luiz Antonio Caropreso
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Estão morrendo os velhos italianos” style=”fancy”]Há alguns dias atrás o Jornal “Folha de São Paulo” publicou um maravilhoso artigo assinado pelo ilustre Embaixador Rubens Ricupero, intitulado “Estão morrendo os velhos italianos”. Esse artigo aborda basicamente pessoas e fatos ocorridos no nosso vizinho bairro do Brás. Embora faça apenas uma citação ao Bairro da Mooca, uma grande parte dos fatos e das situações relatadas retratam também com grande fidelidade os hábitos, os costumes, as pessoas e os lugares de nosso Bairro, razão pela qual, mesmo levando em conta que, por definição editorial, a página “Crônicas, poesias e etc” é reservada para assuntos que abordem exclusivamente a Mooca, resolvemos, em caráter excepcional, inserir este magnífico artigo, inclusive como forma de uma singela homenagem ao seu autor que enaltece e prestigia a nossa região, a região em que nasceu.
Para tanto, mantivemos contato com o Embaixador Ricupero, que atualmente é secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) com sede na Suiça, pedindo sua autorização para a reprodução do artigo, tendo o mesmo amavelmente respondido conforme abaixo :
“Peço-lhe desculpas por só agora poder agradecer sua bela mensagem. Fiquei muito sensibilizado de ver como partilhamos da mesma reação à nossa comum herança. Gostei de saber do trabalho que estão desenvolvendo na Mooca, bairro que conheço bem desde menino. Minha mãe nasceu na rua da Alegria e suas irmãs viveram muito tempo na rua Paraná, depois na Visconde de Parnaíba. Acostumei-me, desde cedo, a andar pelas ruas da Mooca e sinto alegria de ver como está vivo o espírito do bairro.
Abraço forte do amigo,
Rubens Ricupero”
Eis o artigo :
Estão morrendo os velhos italianos
RUBENS RICUPERO
“Por toda a América”, diz um poema de Lawrence Ferlinghetti, “os velhos italianos vêm morrendo, ano após ano.” Com seus chapéus de feltro desbotados, as antiquadas botinas pretas, piemonteses, genoveses, sicilianos esperam sua vez, sentados nos bancos dos jardins, tomando um pouco de sol, e vão morrendo, um a um… Os meus velhos, da primeira geração nascida no Brasil, desapareceram há muito tempo. Meu tio Natale Pelosi, por exemplo, dono de açougue na rua E do Mercado Municipal. Apesar do ofício sanguinolento, tio Natale era a mais mansa das criaturas; como nos Salmos, a alegria do Senhor era sua força. Em paz com a vida e com o “sette e mezzo”, que jogava à noite, sorvendo goles de sambuca e café, só perdia a calma quando o Palestra Itália, já desvirtuado em banal Palmeiras, dava vexames. Na época -Deus seja louvado pela misericórdia de tê-lo poupado das humilhações atuais- isso apenas sucedia de raro em raro e de forma moderada.
Perto do Mercado, do outro lado do Tamanduateí, ficava a rua Santa Rosa, feudo dos atacadistas de cereais. Eram quase todos “bareses”, na realidade originários de Polignano a Mare, na Província de Bari. Gente do mar e da pesca na terra natal, converteram-se no Brasil em cerealistas ou dedicaram-se à distribuição e venda de jornais, ramo dominado também no Rio de Janeiro por meridionais, mas da Calábria. Os bareses de Polignano inauguraram uma das mais antigas quermesses e festas de igreja de São Paulo, a de São Vito Mártir, complementada por outra celebração de dois santos de sua localidade, Cosme e Damião, também mártires. Menino ainda, nos anos 40, comecei a ir à festa com meu pai, cuja família era também da Apúlia e da Província de Bari, mas de cidade diversa, Barletta, o que faz toda diferença em país conhecido pelo particularismo.
É curioso, paradoxal até, que os italianos do sul, censurados na Itália por falta de espírito associativo ou comunitário, tenham sido os únicos imigrantes peninsulares a conservar um mínimo de identidade, da personalidade cultural originária, não se dissolvendo de todo na geléia geral de São Paulo. Sem exceção, as comunidades de igreja que conheci no Brás de minha infância subsistem até hoje e são de meridionais, defendidos pela vizinhança do bairro. As quermesses, as festas, as vendas de pratos típicos, os jogos com brindes foram organizados, a princípio, a fim de levantar fundos para edificar e sustentar a igreja e acabaram ficando. Os de Polignano com a igreja de São Vito, os calabreses do Bexiga com Nossa Senhora da Achiropita, os napolitanos de Caserta ou Pozzuoli com a capela da Virgem de Casaluce, da rua Caetano Pinto, os igualmente napolitanos da rua da Mooca, igreja de San Gennaro. Mesmo no Rio, a igreja de São Francisco de Paula, que visitei em companhia do presidente Scalfaro, é ligada à comunidade calabresa.
Deixei São Paulo e o Brás há 45 anos e tudo praticamente desapareceu do meu tempo de menino. Menos as comunidades e festas de igreja. Vão morrendo os velhos, tal como na São Francisco de Ferlinghetti, os italianos de mãos nodosas e sobrancelhas cabeludas, esfarinhando o pão duro com os dedos para dar de comer aos pombos, os que gostavam de Mussolini, os que amavam Garibaldi, os velhos anarquistas leitores de “L’Umanità Nuova” e fiéis a Sacco e Vanzetti, cheirando a alho, pimentão, a grapa, quase todos já partiram. Ficaram poucos e, antes que esses se apaguem, é preciso recolher-lhes a memória.
É o que tenciona fazer Angela Di Sessa e seus companheiros, que se esforçam por meio dos depoimentos da história oral, da pesquisa de fotos amarelecidas e velhos jornais, a dar visibilidade, nas comemorações dos 450 anos de São Paulo, à “memória pulverizada” dos pugliesi e seus descendentes. Angela é fotógrafa de olho capaz de surpreender o encontro inesperado de cor e forma, de revelar a beleza do cotidiano pobre. Em 1994, fez uma exposição memorável, mostrando, lado a lado, como as imagens visuais da velha Polignano renasciam no coração de São Paulo. Oriunda da comunidade, ela conta com o apoio da Associação São Vito Mártir e da Associação Pugliesa de São Paulo para o projeto Santu Paulu. O nome vem do dialeto greco-salentino. A Apúlia saiu da pré-história quando os espartanos fundaram Taranto no 8º século antes de Cristo. Foi um dos principais esteios da Magna Grécia, quando Roma não passava de covil de salteadores. Ainda se fala grego em Gallipoli e em sete lugares de nomes sonoros -Castrignano dei Greci, Calimera, Melpignano-, onde se servem favas secas com queijo fresco de ovelha e se come a pasta de farinha rústica, a “incannulata”.
Taranto é uma das cinco Províncias da Apúlia, a região que, a partir do sul, se estende por todo o calcanhar da bota itálica para o norte, passando por Brindisi, Lecce, a terra de Aldo Moro, Bari e Foggia. Campo de guerra milenar, foi nos arredores de Barletta, em Canna della Battaglia, que Aníbal esmagou as legiões romanas. Da Apúlia partiu a Primeira Cruzada, com o agigantado guerreiro normando Boemundo, Príncipe de Antioquia. Gregos, cartagineses e romanos, árabes, longobardos e bizantinos, normandos e suábios se sucederam nas terras férteis do Tavoliere della Puglia. Minha “nonna” Mariangela era a prova viva da herança normanda: porte de escandinava, os cabelos louros e finos, os olhos do azul lavado do extremo norte.
Passada a repressão fascistóide do Estado Novo, quando se proibiu falar italiano e se apagaram os nomes da pátria de origem, não faria mal a São Paulo uma pitada multicultural que ponha em evidência, no 450º aniversário da cidade, a riqueza e diversidade de origens e contribuições, de toda parte do Brasil e do mundo, das mulheres e homens que a construíram. Entre esses, os pugliesi figuram nas estatísticas como um dos contingentes menos numerosos dos italianos chegados ao Brasil, pouco mais de 30 mil, longe do meio milhão de vênetos. Deixaram, não obstante, sua marca inconfundível, guardaram um resto de identidade no meio do anonimato da metrópole. Num dia como hoje, 15 de junho, festa de São Vito Mártir, continuam a “re-cordar”, isto é, a reviver no coração a imagem dos velhos ancestrais que nos deixaram, lutando contra a morte com a recusa do esquecimento.
A memória é nossa única arma para inverter o sentido do processo natural e dar vida a nossos pais e avós, aos que ainda recordavam o perfume dos frutos natais e falavam os estranhos dialetos que desaprendemos. É o último e comovido tributo que podemos render aos nossos velhos italianos, agarrando-nos a essas queridas sombras pela lembrança, impedindo pela memória que o esquecimento os condene a morrer de novo.
Nota: quem se interessar pelo projeto poderá entrar em contacto com a coordenadora pelo e-mail: angeladisessa@uol.com.br.
Rubens Ricupero, 66, é secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), mas expressa seus pontos de vista em caráter pessoal. Foi ministro da Fazenda (governo Itamar Franco).
A foto é de autoria de Emidio Luisi
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Comida, Suó e vino” style=”fancy”]O qui si mangia na festa di San Genaro é coza di outro mondo!Fala da festa di San Genaro,
é como fala da própria Intália.
Lá si mangia di tutto um pó:
É torrada cum sardela, pizza, mariamole e azetona,
Calabresa cum porpeta e biringela.
Qui imbrulhiada! Qui bruta comedêra!
Si mangia o ispaguéti,
Cum o môlhio dela Neide,
Os canóli da Odete,
Os dolcinho dela Dirce,
Misturato cum alixe,
Tremoço e sfoliatela.
Qui Festa! Qui bruta misturêra!
Qui nó viu…priciza vê.
O povo, tutto im festa,
Cum o vino nela testa,
Vá dançando a tarantela
Até a matina acuntecê.
Orra meu! Io nem ti conto!
Qui nó cunhéce, preciza cunhecê!
Carlos Guido Piva
Poema extraído do livro “Orra Meu! O canto da Mooca”
Escrito por Carlos Guido Piva
Conheça mais sobre este poeta Mooquense, na página de “Famílias e personalidades”
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Comida, Suó e vino” style=”fancy”] [/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”A Festa de San Gennaro” style=”fancy”]Os pais de Esvigio Concilio vinham de San Cipriano, aldeia próxima da Salerno, cidade campana situada a 80 quilômetros de Nápoles e enobrecida por catedral antiga que guarda no ventre uma jóia de escultura, púlpito soberbo, Entre a igreja de San Gennaro e a sé de Salerno há uma certa diferença, mas padre Esvigio jamais visitou a terra dos seus pais e, por isso, o seu limite artístico tem de ser o mastodonte gótico que se ergueu na nossa praça da Sé, sem desapreço pelas igrejas que os capomastri, levantaram em vários pontos da Itália paulistana. E os capomastri eram mestres de obras, ou nada mais que pedreiros, e conectavam a fantasia e a memória das igrejas das suas aldeias à ponta de um guarda-chuva, com o qual riscavam o chão, traçando ao vivo e na medida exata e total a planta da construção que se preparavam a erigir. O resto estava nas suas cabeças, e dava-se que já intuíssem, antes mesmo que se fincasse no espaço dos ventos, um templo ou um sobrado, mais ou menos como Michelangelo pressentia figuras dentro dos blocos de mármore de Carrara.
Assim se fizeram muitas igrejas, entre elas a Nossa Senhora Achiropita da Bela Vista, a Nossa Senhora de Casaluce no Brás , San Vito Martire e San Gennaro. Algumas mais ricas, ornamentadas com Festões moldados em gesso, outras nem tanto, ou francamente pobres, como San Gennaro, que foi pouco mais que um barracão por muito tempo. As paredes não tinham revestimento e o telhado lacrimejava a sua precariedade em todo canto, e não bastou, para compensar o acanhamento de tudo o mais, o esplendor de um altar, destinado a uma das capelas, e em fim mor, à vista da sua grandiosidade, doado pela condessa Marina Crespi. Pascoal Cataldi, hoje aos 63 anos, lembra-se do dia em que o altar chegou, importado da Itália, desmontado e acondicionado em caixotes enormes. Pascoal era menino, e recorda momentos de notável alvoroço e até de espanto, ao redor dos caixotes que se abriam para revelar a magnificência dos mármores. Em 1974, no entanto, pouco se avançara para tornar a igreja digna daquele altar, e padre Esvigio remoia uma insuportável melancolia. E então apareceram, para lhe dar luzes, os irmãos Iervolino, Alfonso Junior e Ângelo, e Gilberto Evangelista, homens práticos, católicos fervorosos e mooquenses ferrenhos. E se chegaram as três figuras corpulentas e piedosas, e Alfonso, que era o líder, disse com seu sotaque cantado em que vibram as reminiscências das inflexões do dialeto napolitano: “Padre Esvigio, o senhor vai disculpá, mas rifa dá pé, precisamo inventa outra coisa, grande, bonita, ótima mesmo”. E foi ai que surgiu a idéia da festa, “se non mi sbaglio parecida com aquela que se realiza em Nápoles no dia de San Gennaro”, e essa expressão, se non mi sbaglio, quer dizer se não me engano, e muitos mooquenses a usam, bem como outra, “se Dio vuole”, se Deus quiser, que está sempre na boca de Ângelo. E Deus quis, esta será sempre a versão dos irmãos Iervolino, e de Gilberto Evangelista, que desde então se revesaram na coordenação do evento, enquanto Pascoal Cataldi permanece no posto de tesoureiro, miudinho e aprumado, engolido pela sombra dos seus troncudos amigos.
Para Ângelo, não há dúvidas de que o pai da “idéia feliz” foi mesmo Alfonso, que por isso recebeu da Câmara Municipal a medalha Anchieta, ao passo que a festa era premiada com três estrelas no Calendário da Embratur, como grande atração paulistana no mês de setembro. Atração certamente: por volta de cem mil pessoas em 1981 sentaram-se às mesas armadas ao ar livre na rua San Gennaro, e gastaram, segundo anota Cataldi, 3,2 milhões em comida e 976 mil cruzeiros em rifas. Na venda de espaço para estandes de firmas que fizeram ali sua propaganda, e em outros patrocínios, arrecadaram-se mais 11 milhões. Gastaram-se na organização da festa pouco mais que 6 milhões, e façam as contas para chegar a um lucro de mais ou menos 9, enquanto sete anos antes não fora além de 73 mil cruzeiros. Com isso, as paredes da igreja foram revestidas, o telhado substituído, a instalação elétrica renovada, um bom dinheiro investido em obras assistenciais, e padre Esvigio pode pensar agora em outras reformas.
Autor : Mino Carta, do livro “Histórias da Mooca”
Saiba mais sobre este grande escritor na página de “Famílias e Personalidades
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Barroca” style=”fancy”]Eu sempre gostei de futebol. Desde os tempos de garoto.Nós morávamos na Rua Rui Martins, na Mooca. Aos sábados à tarde, ficava junto ao portão de minha casa, um tempão, apenas para ver os jogadores do Democrático F.C. passarem; uniformizados, como soldados que se dirigem a uma batalha. As chuteiras com as travas de ferro batendo contra o cimento da calçada se assemelhavam a acordes de um hino marcial. O campo de batalha era ali perto. Na Barroca. Embora, para mim, fosse inacessível. Meu pai não me levava. Talvez não gostasse de futebol ou não tinha paciência, jamais saberei. Mas às vezes ia com meu padrinho. E esse dia era uma festa! Quantos gladiadores, guerreiros que vinham das hostes do Juventude da Mooca, do Flor, do Madrid, do Danúbio Azul. Não os vi ali naquela praça de guerra de chão batido e vermelho a se engalfinharem na disputa da bola. E o verbo é esse mesmo: “engalfinhar-se”. Futebol de várzea é assim mesmo. Coisa séria. Luta-se apenas pela camisa que se defende e pelos louros da vitória. Pela honra: a sublime e inocente satisfação de vencer e mesmo que, às vezes, o seja a qualquer custo… Em verdade meu pai, creio, não me levava à Barroca por causa do receio das brigas que ocorriam em profusão. Afinal, era um campo de batalha.
Meu tio, irmão de minha mãe, era um desses valentes guerreiros. Zagueiro central do glorioso Paulista da Mooca. Ótimo jogador. Conseguia conjugar bem a virilidade, característica vital ao beque que impõe respeito, com uma técnica apurada. Chegou a treinar no Juventus. Mas os tempos eram outros. Dinheiro curto. Não se podia faltar ao trabalho para ir treinar. “Futebol é coisa de vagabundo”, dizia-se na época. Se isso era ou é verdade, não importa. O que vale é que ele trocou uma carreira de zagueiro promissor por um emprego de metalúrgico lá na Willis em São Bernardo e eu adorava ir aos jogos.
Uma vez fomos assistir, eu e meu padrinho, a uma partida do Juventus, na Rua Javari. Jogo de campeonato. Dia especialíssimo. Porque, além do jogo, fui ver o meu ídolo, Luizinho, que estreava no time grená. O espanhol “ esquentado” brigou com a diretoria do Corinthians e foi jogar no Juventus. Meu padrinho Felipe contou-me que o “pequeno polegar”, como ele era chamado, veio do Maria Zélia , um time de várzea do Belém, para o Corinthians, estreando no alvinegro no dia 28 de agosto de l949 em um jogo contra o São Paulo. Perdemos, mas ele fez o seu primeiro gol com a camisa corinthiana. Depois, ganhou a Pequena Taça do Mundo em 53; foi campeão dos Centenários em 54. Foi para a Mooca e lá ficou uns dois anos. Infelizmente, no dia de sua estréia, não fez gol e o moleque travesso perdeu para o Botafogo de Ribeirão Preto por 2X0. O seu lugar era mesmo no Corinthians. Mas ele só voltaria em 64 e lá ficaria até encerrar a sua carreira em 67. No fim de sua vida, a diretoria “de plantão” do clube presenteou-o com um busto de bronze no Parque São Jorge. Eu estava lá. O pequeno Luizinho chorava como uma criança. Não consegui aproximar-me dele. Mas no dia seguinte, fui ao clube e tirei uma foto, que guardo com carinho, abraçado à estátua do velho Luiz Trujilo.
Fiquei arrasado quando ele morreu em 98. Luizinho foi o meu primeiro ídolo no futebol. Posso te-lo visto passeando pela Rua Rui Martins, as “chancas” rangendo na calçada ou mesmo jogando lá na Barroca. Houve outros ídolos, mas poucos. Como deve ser. Os amores verdadeiros; sinceros são raros, quase únicos.
Richard Mascara
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Acróstico para Mooca” style=”fancy”]As escolas de Primeiro e Segundo Graus, as Faculdades e Universidades.
Mais de sessenta mil estudantes para nosso orgulho e felicidade.
Indústria de grande, médio e pequeno porte, e comércio pujante e diversificado.
Grande interesse dos seus mais de setenta mil habitantes, pelo progresso de um bairro modernizado.
Associações como a Comercial, Conseg, Rotary, Lions, lutam diuturnamente pelo bem comum.
Mantém os ilustres Cidadãos Mooquenses, intactos e sem distinção, os direitos de todos e de cada um.
Os sentidos voltados para a cultura, com seu Teatro, Bibliotecas e vários e competentes jornais.
Olhos sempre atentos, nas vinte e quatro horas do dia, para a saúde, em suas Clínicas, Laboratórios e Hospitais.
Como todos os povos que têm um honrado passado, e sabendo como ninguém cultuar a sua história.
A Mooca guarda lembranças dos amigos na memória e como uma só família, comemora com orgulho e glória.
Raluca
Vale a pena você conhecer um pouco mais deste Mooquense apaixonado pelo bairro na página “Famílias e Personalidades”
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Teu nome” style=”fancy”]Aprendi ama-la desde cedo,dentre os amores de minha vida
(disso nunca fiz nenhum segredo)
Foi a grande paixão a preferida!
Seu nome, um dos primeiros
Proferido em alto som no berço.
Enquanto trocavam meus cueiros,
noções hoje rezadas como um terço.
Moleque jogava minhas peladas,
nas ruas inda de terra esburacadas.
(na boca da vizinha uma fofoca)
Na panela de ferro sempre feijão,
Cozinhando com vagar no carvão.
Amo-te eternamente minha Mooca
Julio Jules Domingues.
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Jantando com o primo Bastos.” style=”fancy”]Nessa época eu tinha lá meus 6 ou 7 anos de idade. Minha mamma tinha uma prima, a Sandra, que considerava como irmã. Foram criadas na mesma casa, numa vila da Rua Visconde de Parnaíba, no Brás. Tenho saudades dos almoços de domingo na casa da nonna Hilda. Macarronada com um denso e maravilhoso molho al sugo, frango assado muito crocante e um delicioso sorvete de coco feito em forminhas de gelo, com um palito de dentes espetado em cada cubo! Aquilo era para mim um banquete! Lembro-me muito bem de meu avô, um alfaiate de respeito que atendia a famosos e políticos, mas que, por isso mesmo, após o almoço, saía para sua alfaiataria em pleno domingo para acabar os trajes de seus afortunados clientes.
Pois bem, a prima Sandra era uma garota de mais ou menos 19 anos, sempre vestida na “crista da onda”, com suas calças tipo cigarrete, blusinha de banlon, sapatilhas e um penteado que transformava seus cabelos em algo parecido com um enorme pão doce. Mas era moda, fazer o que? Hoje, eu mesmo tenho que ver meus filhos ostentando enormes argolas em suas orelhas…
Voltando à prima Sandra, nunca me esquecerei que meu primeiro e último passeio de lambreta foi com ela e seu namoradinho. Eu, um garotinho magriço, fui adaptado entre o rapaz, que obviamente pilotava o bólido, e minha prima, sentada na garupa. Foi uma grande emoção. O rapaz era um piloto tresloucado, que dirigia como um “imbecille”, sem respeitar sinais de trânsito, semáforos, calçadas, pedestres nem coisa alguma. Saí do experimento com os cabelos arrepiados e as calças molhadas. Mas enfim, essa experiência deve ter contribuído pra a ojeriza que hoje eu trago aos veículos motorizados, com 2 rodas.
Passou-se algum tempo, creio que uns 4 anos, ouvi minha mãe comentar com meu pai:
-Antonio, minha prima Sandra está namorando firme, já faz uns bons meses, com seu chefe.
E meu pai:
-Namorando com o chefe dela? Hummm já entendi.
-Antonio, a coisa é séria. Eles estão até falando em casamento!
-Só espero que eles já não tenham feito uma encomenda dessas que mama, chora muito e molha as fraldas.
-“Tônio”, você só pensa nisso! Parece que o rapaz é super simpático. Tenho certeza que vocês vão se dar muito bem.
-Tá certo, então vamos marcar um jantar e você prepara como entrada aqueles maravilhosos mariscos que só você sabe fazer.
Cabe aqui dizer que, realmente, minha mamma sempre cozinhou muito bem. E essa mariscada que ela fazia (graças a Deus faz até hoje) era um verdadeiro manjar. Todos que a experimentavam acabavam por empanzinar-se até não mais poder. Era algo de lambuzar-se, mas com muita dignidade!
O tal jantar foi marcado pra sexta-feira e meu pai, que tinha alguns clientes no litoral, encarregou-se de descer para a Baixada Santista na quinta-feira e trazer algo como uns 5 kg de mariscos graúdos.
Sexta-feira, quando voltei do colégio (aliás do Grupo Escolar Oswaldo Cruz, na Rua da Mooca), ao entrar em casa já senti o maravilhoso aroma da tal mariscada. Um belo perfume de mar, misturado a tomates, cebola, alho, sal, limão e azeite extra virgem! Só aquele cheirinho já me enchia a boca d’água. Bem lá pelas 6 da tarde, a mamma botou a mim e a mio fratello, o Dopinho, debaixo do chuveiro. Ela queria que estivéssemos prontos, banhados e penteados antes que o casal chegasse.
Agora cabe falar um pouquinho de meu irmão, o Dopo! Nunca imaginei que aquele garoto encapetado acabaria se tornando o profissional renomado que é hoje. Quem conhece essa figura dócil, calma e tranqüila de hoje, não consegue imaginar o pequeno terrorista que ele foi na infância! O guri estava sempre ligado no 220 V. Todo santo dia minha mãe enfrentava um rol de reclamações da vizinhança relacionadas sempre às proezas do Dopinho. Janelas e telhas quebradas, gatos escaldados em água fervente, vizinhas idosas sendo xingadas pelos mais imaginativos adjetivos, enfim, era uma verdadeira ladainha.
E lá estávamos os dois, de banho tomado, com Brill Cream nos cabelos, ouvindo uma verdadeiro sermão da mamma a respeito de como deveríamos nos comportar frente ao novo namorado da Sandra. Dopinho ouvia a tudo com uma cara da santo que não dá pra descrever.
20:00 hs em ponto, toca a campainha de nossa casa (morávamos na Rua São Rafael) e adentram nossa sala Sandra e seu pretendente, que por coincidência, assim como mio babbo, também se chamava Antonio, Antonio Bastos. Meu pai e o Bastos, logo de cara, deram-se muito bem. Aliás, havia até uma certa semelhança física entre eles. Após as apresentações de praxe, minha mamma encaminhou tutti quanti para a mesa da cozinha, onde nos aguardavam os maravilhosos mariscos. Aos adultos foi servido um bello Chanti, e pros “miúdos”, eu e meu irmão, vinho com água e açúcar. Como em todo encontro desse tipo, falou-se um pouquinho de futebol, as mulheres comentaram sobre a roupa da Hebe no último domingo, e o papo não engrenava. De repente, invade o ar um cheiro horroroso! Putrefato, eu diria. Todos na mesa perceberam, mas ninguém falou nada. Cada um olhava para o outro com um rabo de olho, e todos se puseram a disfarçar degustando os mariscos enquanto o odor se dissipava. Dopinho estava ali, com a maior cara de santo, entretido em arrancar seus mariscos das casquinhas.
Eis que, novamente, o ar é tomado por aquele cheiro horrível. Dessa vez a coisa estava pior. Eu chegava a sentir até um certo ardume em minhas narinas. Os adultos emudeceram e um silêncio sepulcral tomou conta daquela cozinha. Nisso, o Bastos, pra tentar “quebrar o gelo”, pega uma casquinha de marisco, com um molusco dentro, mostra pra mim e pergunta:
– Luizinho, o que é que isso parece?
Pego de surpresa, balbuciei:
– Uma pedrinha.
Ainda com a intenção de aliviar a tensão, Bastos vira-se pra prima Sandra e diz:
– Benzinho, me diz o que parece??
E ela:
-Ah, amore, não sei…. parece um casulo de bicho da seda!
E Bastos resolveu continuar sua enquete junto à pessoa menos adequada para tal:
– E você Dopinho, me diz com o que esse bichinho se parece?
Meu irmãozinho ajoelhou-se na cadeira, apoiou as mãozinhas sobre a mesa e começou a olhar atentamente o marisco. Arrancou o bichinho da casca e examinou todos os ângulos possíveis. A essa altura, meus pais já estavam posicionados estrategicamente atrás de mio fratello, preocupados com a resposta do garoto. De repente, com a maior inocência que uma criança pode ter, Dopinho esboçou um:
– Parece c…
Minha mãe tapou de imediato a boca do guri com sua mão. Dopinho começou a chorar e Bastos interpôs-se entre os dois:
– Não faça isso, Dona Magda, deixe o garoto se expressar.
Meio a contra-gosto, minha mãe liberou a boca do Dopo e disse:
-Tá bem, filhinho, fala pro tio o que você acha…mas não diga nome feio, certo?
-Tá bom mamma. Esse bicho se parece com o buraquinho que eu uso pra fazer aqueles puns fedidos que vocês sentiram!
E retirou-se da mesa.
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