Já se foram quase dois anos quando entrei nesse extraordinário PORTAL e falei sobre as paineiras que enfeitavam o Ginásio Estadual Antônio Firmino de Proença, onde estudei. De lá para cá perdi vários amigos, enquanto o bairro se transforma num grande conglomerado de edifícios. Alguns moradores são contra, outros favoráveis ao progresso que se estende por vários bairros deste nosso pujante Estado. Eu, em particular, me abstenho de opinar, até porque hoje eu moro defronte aos dois maiores picos de São Paulo, o Pico do Jaraguá e o Pico dos Papagaios. Quando o grande romancista Richard Llewellyn lançou para o mundo “Como Era Verde Meu Vale”, na certa se inspirou numa área semelhante a Mooca de outrora, grande parte dela na época pertencente a Companhia Parque da Mooca de terrenos. Como era verde a Mooca em que nasci e corria saltitante por caminhos orlados de ricas vegetações verdes como esmeraldas! Como era linda a Barroca dos meus oito anos! Era tão verde, tão fresca e tão exuberante, sobretudo nas manhãs frias em que o orvalho a beijava sofregadamente e refletiam nas folhas ao receberem as primeiras luzes do sol! Como eram magníficos os jardins na estação das flores! Como nos atraiam as goiabeiras repletas de botões prestes a se transformarem em suculentas goiabas! Os caquizeiros cujos frutos pareciam enfeites de Natal tão redondos e vermelhos eram. As parreiras de uvas brancas que também ajudavam a enfeitar as entradas das casas formando robustos caramanchões. Como eram ricas as festas de 15 de novembro, 7 de setembro e, sobretudo as de 13, 24 e 29 de junho, quando se dançava a quadrilha em ruas enfeitas de bandeirinhas de diferentes cores! Sempre que relembro esses fatos me emociono e as lágrimas emergem destes meus olhos já um pouco cansados e banham suavemente meu rosto. Será por que hoje faço parte deste fantástico e seleto mundo de fantasias onde estão todos os idosos sensíveis como eu? Uma coisa é certa: com prédios ou sem prédios, o amor que tinha por ela continua o mesmo…
Assim como muitos, eu saí a certa altura da Mooca, para retornar ao primeiro apelo. E hoje aqui educo meus filhos. Mas lembrar da Mooca da minha infância é lembrar do jogo de amarelinha nas ruas e calçadas, do pular corda às tardes, de soltar pipa no Campo dos Bois. É lembrar, sim, da eterna e terna rivalidade entre os vizinhos italianos e espanhóis, lado a lado, muro com muro, mais amigos que nada, mas com aquelas referências: “Aquele espanhol…”. “Esse italiano ….”. É lembrar dos “bem nascidos” da Paes de Barros, dos “remediados” que, na maioria das vezes, haviam “subido” a Rua da Mooca, vindos da João Antonio de Oliveira, Ana Nery e outras, fincando âncoras na parte “de cima” da rua dos Trilhos e suas travessas, depois da rua Clark…
Lembrar da Mooca da minha infância é lembrar ainda das saudades dos meus pais da sua Mooca de infância, é re-escutar a história da chegada da família na Hospedaria dos Imigrantes; lembrar da Mooca da minha infância é sentir o cheiro das feiras livres, dos feirantes que cumprimentavam a todos pelo nome, é lembrar da inauguração do prédio das Escolas Agrupadas Dr. Fábio da Silva Prado, conceito moderno, integrado com biblioteca e parque esportivo, da sua primeira diretora, Dona Laís, seu colar de pérolas e seu coque à prova de tempestades e tufões.
Lembrar da Mooca da minha infância é pegar carona novamente na calota do carrinho de sorvete da Kibon — sorvete, uma vez por semana, pirulitos de chocolate nas outras. Unhhh, onde foram parar?. Continuar nas lembranças da Mooca é crescer um pouco e passar a freqüentar as domingueiras do Juventus, onde despertei para as primeiras paixões e as primeiras dores de amores. É achar engraçado e, ao mesmo tempo, sentir orgulho ao ouvir “Me sou da Mooca”.
E quando incautos moradores de outros bairros, por eles considerados mais nobres, perguntam à queima-roupa: “Nooooossa, você mora na Mooca, quantas horas demora pra chegar lá?”, dá vontade de responder com uma “pernachia” ao cidadão. Bem mandada.
Lembrar da Mooca é relembrar cada rosto dos amigos e professores do MMDC, desde sua inauguração na rua Cuiabá. Reviver as “perigosas” emoções dos namoricos acontecidos no Plínio Barreto (e adjacência!). É lembrar da Faculdade São Judas ainda no prédio que hoje é o Extra, do vai e vem de seus corredores, das aulas de latim e redação da Ana Maria Altenfelder Mesquita de Camargo, hoje vice-presidente da Universidade.
Lembrar da Mooca é lembrar quando se foi embora também. Conhecer outros ares, muito mais poluídos. É ir “para o lado de lá, onde as coisas aconteciam”. Lembrar dessa partida é lembrar do primeiro apartamento, um cubículo perto do trabalho, jornalista, numa das maiores empresas da área. É lembrar da boêmia e dos novos amigos, que nem sabiam onde ficava a Mooca. Mas que foram conhecendo alguns de seus moradores, teimosos que somos em mostrar a cara. A mãe, filha de portugueses, mas italiana até a raiz dos cabelos; o pai, argentino, filho de espanhol, que só não nasceu na Mooca, mas cresceu e trabalhou toda a sua vida aqui, e aqui teve seus filhos, viveu alegrias, tristezas, até o fim. A melhor amiga, que também não era da Mooca, mas virou mooquense de coração.
E os amigos conhecendo os tesouros do bairro. O Dicunto, onde caíram e caem até hoje de boca nos doces e salgados de enlouquecer, a Esfihas Juventus com garçons que atravessam o tempo e sabem exatamente o que você quer. A Pizzaria São Pedro, aonde vieram meio de nariz torcido – “Imagine se essa pizza é assim tão especial –“ e hoje trazem os filhos e muitos até os netos, com um discurso pra lá de curioso: “Conheço uma pizzaria lá na Mooca que dá de dez nessa chique que você sempre vai”.
Lembrar da Mooca é rir muito quando se encontra o amigo saído do Alto de Pinheiros, com a última edição da revista Morar da Folha de S.Paulo, falar com a maior cara de espanto: “A Folha disse que o melhor lugar para se morar em São Paulo é na Mooca”. É, bello, eu já sabia!
Da Mooca me lembro do Senhor Palmorino Mônaco – Mario Lopomo” style=”fancy”]Da Mooca me lembro do Senhor Palmorino Mônaco, dono de uma marmoraria em que meu pai trabalhava.
Ele morava na rua da Mooca. Seu filho, Salvador, era casado com Julia uma mulher muito linda e educada, que era descendente de japoneses. Salvador sempre ia em nossa casa levar pedra de mármore para meu pai colocar as letras. Eram pedras para lapide para se colocar em túmulos. Seu Palmorino, tinha também um filho que era deputado, Agenor Mônaco. Ele tinha uma barba grande o que importunava seu pai, que chegou a propor a ele uma viagem a Itália caso ele cortasse a barba. Pedido negado.
Ai eu era uma criança, pois estávamos no inicio dos anos 1950. Mais tarde jogando futebol joguei conta o Palestra da Mooca, em nosso campo. Jogávamos sábado a tarde. O Palestra tinha um time muito bom.Como editávamos jogando em nosso campo vencemos por 3 x 2. Eu como goleiro do SAPIQ, uma firma de óleo combustível da Vila Olímpia, não me esqueço do meia esquerda, um negro que alem de ser bom de bola tinha um chute potente. Isso foi em 1963.