Uma história de fé, trabalho, solidariedade e integração

Quando se fala na presença judaica em São Paulo, é comum que a lembrança recaia imediatamente sobre o Bom Retiro. Mas houve, na zona leste da cidade, outro importante núcleo da imigração judaica: a Mooca.

Durante várias décadas, o bairro abrigou uma comunidade judaica formada predominantemente por imigrantes procedentes do Oriente Médio, especialmente do Líbano e da Síria, além de famílias originárias de cidades como Sidon, Safed, Yafo e Jerusalém. Eles chegaram a uma Mooca que já era marcada pela presença de italianos, espanhóis, portugueses e outros imigrantes e passaram a participar ativamente da vida econômica e social do bairro.

A história dessa comunidade é, portanto, parte da própria história da Mooca como bairro de imigrantes.

OS PRIMEIROS IMIGRANTES

A presença dos judeus do Oriente Médio na Mooca começou nas primeiras décadas do século XX. A maior parte dos primeiros imigrantes procedia do Líbano, então integrante do Império Otomano. Depois da Primeira Guerra Mundial, chegaram também famílias provenientes de Safed, Yafo e Jerusalém.

Segundo o material reunido pelo Portal da Mooca, por volta de 1940 a comunidade ainda não ultrapassava cinquenta famílias. Outras fontes e estudos posteriores mostram, entretanto, que ela cresceu significativamente nas décadas seguintes, chegando a reunir algumas centenas de famílias.

A imigração não pode ser entendida apenas como consequência de perseguições religiosas. Estudos recentes sobre os judeus do Líbano destacam também fatores econômicos, a instabilidade política que acompanhou o fim do Império Otomano, a crise econômica e a obrigatoriedade do serviço militar como elementos que estimularam muitos jovens e famílias a deixar o Oriente Médio.

São Paulo apresentava, naquele momento, uma economia em rápida expansão e oferecia possibilidades de trabalho e negócios. Para os recém-chegados, a Mooca apresentava ainda outras vantagens: estava próxima das ferrovias, da Hospedaria de Imigrantes, do centro comercial e de regiões como o Brás e a Rua 25 de Março.

Além disso, havia uma razão fundamental: quem chegava procurava, naturalmente, morar perto de parentes, amigos e conhecidos que já estavam estabelecidos.

Assim, pouco a pouco, formou-se na Mooca um núcleo judaico, especialmente nas proximidades das ruas Odorico Mendes, Dom Bosco e arredores.

UMA COMUNIDADE JUDAICA DIFERENTE DA DO BOM RETIRO

É importante compreender que os judeus da Mooca não constituíam exatamente o mesmo grupo que se estabeleceu no Bom Retiro.

No Bom Retiro predominavam os judeus asquenazitas, provenientes sobretudo da Europa Central e Oriental, muitos deles falantes de ídiche.

Na Mooca, predominavam os judeus orientais, de origem sírio-libanesa, que tinham como idioma de uso cotidiano o árabe e conservavam costumes adquiridos durante gerações de vida no Oriente Médio.

As diferenças de idioma, costumes e tradições chegaram a criar certo distanciamento entre os dois grupos.

Os próprios judeus da Mooca eram chamados de “turcos” pelos asquenazitas, denominação relacionada ao fato de muitos terem chegado com documentos do antigo Império Otomano. Por sua vez, os moradores da Mooca chamavam os judeus do Bom Retiro de “gringos”.

Com o tempo, porém, os contatos aumentaram e as diferenças foram sendo superadas.

A escola teve papel importante nesse processo. Crianças de famílias de diferentes origens judaicas estudavam juntas em escolas públicas da região. Há relatos de alunos de origem síria e libanesa convivendo com crianças asquenazitas, além dos filhos de italianos, espanhóis, portugueses e outros moradores do bairro.

A VIDA NA MOOCA

A comunidade judaica da Mooca não vivia isolada.

Os judeus orientais mantinham relações próximas com outros moradores e, particularmente, com sírio-libaneses cristãos e muçulmanos. Havia entre eles uma série de elementos culturais comuns: o idioma árabe, hábitos familiares, culinária, música e costumes herdados da vida no Oriente Médio.

A religião era, naturalmente, um elemento que diferenciava os grupos, mas não impedia relações comerciais e de amizade.

Essa convivência com diferentes comunidades fazia parte da própria identidade da Mooca.

Na primeira metade do século XX, o bairro era simultaneamente residencial e industrial. Nas proximidades funcionavam importantes fábricas e estabelecimentos, enquanto as ruas eram ocupadas por pequenas casas, muitas delas destinadas a trabalhadores.

A região da Rua Odorico Mendes, onde posteriormente seriam construídas as duas sinagogas, tinha caráter predominantemente residencial.

DO MASCATE AO EMPREENDEDOR

A sobrevivência dos primeiros imigrantes judeus da Mooca esteve diretamente ligada ao trabalho.

Grande parte começou como mascate, ou prestamista, percorrendo ruas e bairros oferecendo mercadorias. Era um trabalho difícil, que exigia disposição física, capacidade de comunicação e, sobretudo, confiança.

As mercadorias eram frequentemente adquiridas no comércio atacadista da Rua Oriente e da região da Rua 25 de Março, onde havia forte presença de comerciantes sírio-libaneses.

Alguns imigrantes, entretanto, não se adaptaram ao comércio ambulante. Outros possuíam alguma escolaridade ou consideravam humilhante carregar mercadorias pelas ruas. Procuraram então outras atividades, inclusive ocupações relacionadas à vida religiosa.

Com dedicação e persistência, muitos dos mascates conseguiram economizar e abrir pequenos estabelecimentos. Passaram a atuar no comércio de armarinhos, tecidos, artigos religiosos e outros produtos.

A trajetória de vários deles ilustra uma característica recorrente da imigração: o pequeno comércio serviu como primeiro degrau para a ascensão econômica.

JOSÉ SIMANTOB: UM DOS PIONEIROS

Entre os personagens dessa história está José Simantob, natural de Sidon.

Ele chegou ao Rio de Janeiro em 1906, aos 23 anos, depois de um desentendimento com um muçulmano de sua cidade. Trabalhou inicialmente como colchoeiro na Casa Nunes, loja de tapeçaria situada na Rua da Carioca.

Dormindo no próprio local de trabalho, aperfeiçoou sua técnica de fabricação de acolchoados.

Depois de retornar temporariamente a Sidon, onde se casou com Habibe, filha de Mordoch Hadid, voltou ao Brasil em 1909 acompanhado dos irmãos Salim e Carlos.

Em São Paulo, depois de trabalhar com os Klabin, estabeleceu-se na Mooca e passou a trabalhar no comércio.

Sua experiência com acolchoados de luxo fez com que se relacionasse com importantes famílias sírio-libanesas, entre elas os Jafet e os Calfat.

Sua trajetória tornou-se um exemplo para outros imigrantes e ajudou a estabelecer a fabricação de colchões e acolchoados como uma das atividades econômicas características de parte da comunidade judaica da Mooca.

ISAAC SAYEG E A ORGANIZAÇÃO DA COMUNIDADE

Outro personagem fundamental foi Isaac Sayeg.

Antes da Primeira Guerra Mundial, jovens judeus procedentes de Damasco e Beirute, entre eles Isaac Sayeg e Gabriel Kibrit, já haviam se instalado em São Paulo, acompanhados ou seguidos por famílias como Menahem Politis, Assilam Cohen, Peres, Adissy, Jacob e Zeitune.

Em 1920, Isaac Sayeg retornou ao Brasil com a família. Durante a viagem no navio Provence, que trazia imigrantes do Oriente Médio para a América do Sul, passou por momentos de grande apreensão e, segundo a tradição preservada pela comunidade, comprometeu-se a construir uma mikve — espaço destinado ao ritual judaico de purificação — para uso dos judeus da Mooca.

A partir daí, Isaac Sayeg assumiu importante papel na organização comunitária.

Ajudava os recém-chegados, orientava-os na procura de trabalho e facilitava sua entrada no comércio ambulante, inclusive por meio do sistema de vendas a crédito.

Sua trajetória é também exemplo da ascensão econômica de alguns dos pioneiros. Em 1945, recebeu o primeiro prêmio da Loteria Federal e utilizou parte dos recursos para ampliar seus negócios, adquirir terrenos e casas na Mooca e ingressar na indústria têxtil.

A PRIMEIRA SINAGOGA DA MOOCA

À medida que a comunidade crescia, tornou-se necessária a criação de um espaço permanente para as orações e para a vida comunitária.

Até então, cerimônias religiosas eram realizadas em residências particulares. A casa de José Simantob, por exemplo, foi um dos locais onde os primeiros imigrantes de sua origem se reuniam.

Em 1926, Jacob Adissy, Carlos Hadid e Salim Simantob procuraram a família Klabin, proprietária de terrenos na região, e conseguiram um terreno na Rua Odorico Mendes.

Isaac Sayeg, Gabriel Kibrit e Nassim Nigri, apoiados por famílias como Cohen, Politis, Zeitune, Peres e Adissy, participaram do esforço para levantar o templo. A construção foi financiada por doações e mensalidades dos membros da comunidade.

A Sinagoga Israelita Brasileira foi fundada em 1928 e instalada inicialmente na Rua Oscar Horta. Em agosto de 1930, transferiu-se para a Rua Odorico Mendes, nº 174, quando foi oficialmente inaugurada. A partir daí, a Rua Odorico Mendes tornou-se um dos principais endereços da presença judaica na Mooca.

DUAS SINAGOGAS NA MESMA RUA

A história da comunidade, entretanto, não ficou restrita a uma única sinagoga.

Grande parte dos primeiros imigrantes era procedente de Sidon. Posteriormente, chegaram famílias de Safed, Jerusalém, Yafo e outras cidades do Oriente Médio.

Embora todos compartilhassem a religião judaica e a língua árabe, existiam fortes vínculos com as cidades e comunidades de origem.

Esse regionalismo acabou contribuindo para a criação de duas instituições religiosas.

A segunda foi a Sociedade União Israelita Paulista, inaugurada em 1935 na própria Rua Odorico Mendes. Ela ficou associada especialmente aos judeus procedentes de Safed, enquanto a primeira sinagoga reunia principalmente os originários de Sidon.

Era uma situação bastante singular: duas sinagogas, praticamente lado a lado, atendendo grupos que possuíam diferenças de origem e de rito, mas que pertenciam à mesma comunidade judaica da Mooca.

Como observou a documentação reunida por Rachel Mizrahi, as duas instituições não impediram a formação de uma comunidade mais ampla, unida pelas necessidades comuns, pela fé, pelas tradições, pela beneficência e pelo idioma.

A SINAGOGA COMO CENTRO DA VIDA COMUNITÁRIA

Para aqueles imigrantes, a sinagoga era muito mais do que um lugar de oração.

Era ponto de encontro, espaço de sociabilidade, local de celebração das festas religiosas e, também, centro de apoio aos recém-chegados.

A comunidade possuía forte tradição religiosa, transmitida principalmente dentro das próprias famílias.

Pais ensinavam aos filhos as orações e os costumes judaicos. Segundo os estudos sobre a comunidade, esse conhecimento religioso transmitido de geração em geração fez com que muitos dos homens da Mooca fossem reconhecidos como “bons de reza”.

Por isso, durante muitos anos a comunidade viveu sem a presença permanente de um rabino. As funções religiosas eram desempenhadas por membros da própria coletividade, entre eles os chazanim, responsáveis pela condução das orações.

Entre os nomes ligados à vida religiosa da Sinagoga Israelita Brasileira aparecem Benjamin Cohen, José e outros membros das famílias que ajudaram a organizar a comunidade.

AS MULHERES E A SOLIDARIEDADE

A vida comunitária também contou com intensa participação feminina.

Junto à Sinagoga Israelita Brasileira funcionava a chamada Sociedade das Damas, dedicada a atividades filantrópicas.

A solidariedade era essencial para uma comunidade formada por imigrantes que, em muitos casos, chegavam ao país praticamente sem recursos.

Quando novos judeus procedentes do Oriente Médio chegavam a São Paulo, os que já estavam estabelecidos ajudavam-nos a encontrar moradia e trabalho.

Mercadorias eram oferecidas em consignação para que os recém-chegados pudessem começar como mascates.

Os solteiros também eram integrados à comunidade por meio de casamentos com moças de famílias judaicas locais.

Assim, a comunidade não era apenas uma associação religiosa. Funcionava também como uma verdadeira rede de proteção social.

AS FAMÍLIAS DA MOOCA JUDAICA

A história da comunidade pode ser contada também pelos sobrenomes que ficaram associados ao bairro.

Entre eles aparecem Sayeg, Simantob, Kibrit, Nigri, Cohen, Politis, Peres, Adissy, Zeitune, Hadid, Amar, Halali, Mizrahi, Azan, Anteb, Zaid e outros.

Cada família possui uma história própria de imigração, trabalho, casamento, religião e adaptação à vida brasileira.

Somadas, essas histórias ajudam a compreender a formação da comunidade.

A pesquisadora Rachel Mizrahi, que nasceu e viveu sua infância e juventude na Mooca, dedicou parte importante de sua produção acadêmica à recuperação dessa memória.

Seu livro Imigrantes judeus do Oriente Médio: São Paulo e Rio de Janeiro, publicado pela Ateliê Editorial em 2003, reúne depoimentos, documentos, fotografias, tabelas, gráficos e mapas sobre essas comunidades.

Outra obra, Do mascate ao empreendedor: uma família da antiga Mooca, recupera a trajetória familiar e ajuda a mostrar, em escala individual, o caminho percorrido por esses imigrantes.

ESCOLA, TRABALHO E CONVIVÊNCIA

Os filhos dos primeiros imigrantes cresceram em uma realidade diferente daquela vivida por seus pais.

Enquanto os pioneiros chegaram falando árabe e encontraram dificuldades para se comunicar em português, a segunda geração passou a dominar a língua portuguesa e a frequentar escolas brasileiras.

A comunidade não chegou a construir uma escola própria na Mooca. Por isso, muitas crianças estudaram nas escolas públicas do bairro. Esse ambiente escolar foi também um importante espaço de integração.

Há relatos de crianças de famílias judaicas de diferentes origens estudando na mesma classe e convivendo diariamente com filhos de italianos, espanhóis, portugueses e outros moradores.

Um depoimento preservado sobre a Escola Luiz Fleitlich, por exemplo, registra a presença de alunos judeus asquenazitas e de famílias provenientes da Síria na mesma escola.

A escola, portanto, ajudou a construir uma geração que já se sentia profundamente ligada à cidade e ao bairro onde havia nascido.

A MOOCA COMO LUGAR DE ASCENSÃO SOCIAL

A trajetória econômica também mudou.

A geração dos pais havia começado, muitas vezes, como mascate, colchoeiro ou pequeno comerciante. Seus filhos e netos passaram a abrir lojas, fábricas e empresas. A indústria têxtil tornou-se particularmente importante para algumas dessas famílias.

Um exemplo lembrado nas memórias de Rachel Mizrahi é o de seus irmãos, industriais do setor de roupas infanto-juvenis, que criaram na Mooca um complexo industrial envolvendo o chamado Castelinho, a unidade da Toggs na Rua Madre de Deus e outra na Rua Padre Raposo.

Essas histórias demonstram como a comunidade passou, ao longo de algumas décadas, da condição de imigrante recém-chegada para uma posição de maior estabilidade econômica.

A MOOCA JUDAICA E O TAMANDUATEÍ

Existe também uma curiosa relação entre a geografia da comunidade e o Rio Tamanduateí.

Quando os primeiros imigrantes chegaram, o rio apresentava condições muito diferentes das atuais. Memórias preservadas por antigos moradores descrevem a região como arborizada e o Tamanduateí como um curso d’água ainda utilizado pela população. Há inclusive referências à utilização do rio para a mikve.

A situação mudaria profundamente nas décadas seguintes.

As frequentes enchentes do Tamanduateí passaram a afetar a vida dos moradores e contribuíram para a saída de famílias da região.

O próprio crescimento econômico da comunidade também estimulou essa mudança residencial.

A MUDANÇA PARA OUTROS BAIRROS

A partir da segunda metade do século XX, a antiga concentração judaica da Mooca começou a se desfazer.

Famílias que haviam prosperado passaram a procurar regiões consideradas mais adequadas às novas condições econômicas e sociais.

Higienópolis tornou-se um dos principais destinos.

A mudança não significou o desaparecimento da comunidade, mas uma transformação de sua geografia.

Um dos resultados desse processo foi a criação da Congregação Monte Sinai, em Higienópolis. A instituição está ligada à antiga comunidade da Mooca e recebeu muitos de seus descendentes.

Na década de 1960, portanto, começou a se tornar cada vez mais evidente a dispersão das famílias que durante décadas haviam concentrado sua vida comunitária na Mooca.

A SEGUNDA E A TERCEIRA GERAÇÕES

A dispersão também representou uma mudança cultural.

Os filhos e netos dos pioneiros já eram paulistanos.

Tinham estudado nas escolas da cidade, falavam português, frequentavam universidades e participavam da vida econômica de São Paulo.

Continuavam ligados às tradições judaicas, mas já não dependiam exclusivamente da pequena comunidade da Rua Odorico Mendes.

Alguns mantiveram os negócios na Mooca; outros transferiram suas empresas e residências para outras regiões.

A comunidade deixava, assim, de ser uma concentração territorial para transformar-se principalmente em uma rede familiar e religiosa espalhada pela cidade.

DUAS SINAGOGAS QUE RESISTIRAM AO TEMPO

Apesar da saída de grande parte das famílias, as duas sinagogas da Rua Odorico Mendes permaneceram como testemunhas materiais daquela história.

A Sinagoga Israelita Brasileira e a Sociedade União Israelita Paulista continuam sendo referências fundamentais para compreender a presença judaica na Mooca.

As duas construções são particularmente importantes porque não representam apenas edifícios religiosos. Elas são documentos materiais de uma experiência imigratória.

Suas paredes testemunharam casamentos, festas, orações, reuniões, atividades beneficentes, encontros familiares e a chegada de sucessivas gerações.

Mesmo depois da dispersão da comunidade, permaneceram como lugares de memória.

UMA HISTÓRIA QUE VOLTA A SER CONTADA

Durante muitos anos, a história judaica da Mooca ficou relativamente desconhecida fora da própria comunidade.

Essa situação começou a mudar com os trabalhos de pesquisadores e com a recuperação dos depoimentos das famílias.

Rachel Mizrahi teve papel fundamental nesse processo, especialmente ao registrar a experiência dos judeus orientais em São Paulo e no Rio de Janeiro. Seu trabalho mostrou que a imigração judaica brasileira não foi formada por um único grupo homogêneo, mas por comunidades diversas, com origens, idiomas, costumes e trajetórias diferentes.

Mais recentemente, o projeto “Mooca Judaica: histórias e memórias de uma comunidade”, desenvolvido pelas pesquisadoras Adriana Abuhab Bialski e Myriam Szwarcbart, recuperou novas histórias por meio de entrevistas com descendentes e integrantes da comunidade.

A exposição reuniu fotografias, objetos e depoimentos e, em 2026, passou também pelo Museu da Imigração, na própria Mooca.

É significativo que essa memória tenha retornado justamente ao bairro onde essa história aconteceu.

UMA PARTE DA HISTÓRIA DA MOOCA

A presença judaica na Mooca não pode ser reduzida às duas sinagogas da Rua Odorico Mendes.

Ela está nas casas onde essas famílias viveram, nas escolas onde seus filhos estudaram, nas fábricas e lojas onde trabalharam, nos casamentos realizados, nas festas religiosas, nas amizades construídas com italianos, espanhóis, portugueses e sírio-libaneses, e nas relações comerciais que ajudaram a transformar a vida econômica do bairro.

Está também nas lembranças daqueles que nasceram e cresceram na Mooca e que, mesmo depois de deixar o bairro, continuaram a guardar suas histórias.

Os primeiros imigrantes chegaram trazendo pouco mais que suas tradições, sua fé, suas habilidades profissionais e a esperança de construir uma vida melhor.

Começaram muitas vezes como mascates, colchoeiros e pequenos comerciantes. Criaram famílias, abriram negócios, construíram sinagogas, ajudaram novos imigrantes e educaram seus filhos.

Com o passar das décadas, muitos deixaram a Mooca em busca de novos espaços. Mas a mudança não apagou sua passagem pelo bairro.

A história dos judeus da Mooca é, sobretudo, uma história de imigração, trabalho, solidariedade, religiosidade, adaptação e convivência.

E faz parte daquela grande história que tornou a Mooca um dos bairros mais marcados pela diversidade de povos e culturas que ajudaram a construir São Paulo.