Há lugares que fazem parte da história. E há outros que, de tão privilegiados pelos acontecimentos, parecem ter sido escolhidos pelo destino para testemunhar momentos que jamais serão esquecidos.
A Rua Javari, na Mooca, é um desses lugares.
Recentemente, mostramos aqui duas curiosas coincidências envolvendo Pelé e o Juventus: o famoso gol que o Rei considerava o mais bonito de sua carreira, marcado justamente na Rua Javari, e o pênalti que lhe permitiu chegar ao milésimo gol, cometido pelo ex-jogador juventino Fernando.
Agora, surge mais um capítulo — e talvez um dos mais surpreendentes — dessa história.
Muito antes de a Rua Javari se tornar o cenário de uma das jogadas mais geniais da carreira de Pelé, o estádio do Juventus recebeu, ainda menino, aquele que viria a ser o maior jogador de futebol de todos os tempos.
Era Edson Arantes do Nascimento, integrante do time infantojuvenil do Bauru Atlético Clube, o famoso Baquinho.
A história aconteceu em 21 de março de 1954.
Naquela tarde, o Baquinho foi, pela primeira vez, à capital de São Paulo como uma espécie de prêmio pela excelente campanha que vinha realizando em Bauru. Na Rua Javari, enfrentou o Flamengo da Vila Mariana (há duvida se é Vila Mariana ou Vila Maria), campeão infantojuvenil da capital, em partida preliminar do confronto entre América de São José do Rio Preto e Associação Desportiva Araraquara, partida do Campeonato Paulista da Segunda Divisão.
O que deveria ser apenas mais uma apresentação de uma jovem equipe de Bauru acabou se transformando em um acontecimento histórico.
O Baquinho goleou por 12 a 1 e aquele garoto chamado Edson foi responsável por cinco gols.
A façanha não passou despercebida. Havia jornalistas e profissionais de rádio no estádio naquela tarde e o desempenho do garoto chamou a atenção de quem acompanhava a partida. A atuação do garoto impressionou tanto que o comentarista Milton Camargo, da Rádio e TV Tupi, teria dito durante a transmissão: “A sensação na preliminar é um negrinho, um tostão vestido de gente, fazendo misérias e marcando gols sensacionais.”
O historiador e jornalista Luciano Dias Pires conta que Pelé quase não jogou por causa de uma confusão cometida por um segurança, que o barrou na porta.
“Quando a delegação chegou, ele [Pelé] se dispersou para comprar amendoins e ficou por trás. Ao tentar entrar, foi barrado por um segurança, que não acreditava que ele fazia parte do Baquinho. Os dirigentes o ficaram procurando e, por sorte, encontraram-no e liberaram a entrada.”
Anos depois, companheiros de equipe recordariam aquela apresentação como o primeiro grande momento de Pelé na capital paulista.
Conformando o fato, uma reportagem publicada pelo Diário de Bauru em 23 de março de 1954, dois dias depois da partida, registrou a apresentação do Baquinho na Rua Javari. A existência desse documento da época foi posteriormente confirmada em uma exposição histórica dedicada à vida de Pelé em Bauru e por depoimentos de companheiros do craque.
Naquele domingo, entretanto, ninguém poderia imaginar a dimensão que aquele garoto alcançaria.
CINCO ANOS DEPOIS, O REI VOLTOU
A Rua Javari voltaria a encontrar Pelé pouco mais de cinco anos depois.
Era 2 de agosto de 1959. Pelé já não era mais o menino do Baquinho. Aos 18 anos, já era a grande estrela do Santos e uma das maiores atrações do futebol brasileiro.
Naquele domingo, o Santos enfrentou o Juventus pelo Campeonato Paulista. A partida terminou com vitória santista por 4 a 0, com três gols de Pelé e outro de Dorval.
Mas o placar acabou ficando em segundo plano diante de um lance que entraria definitivamente para a história do futebol. Era o chamado “Gol da Rua Javari”, objeto de uma outra matéria já publicada pelo Portal da Mooca, gol esse apontado pelo próprio Pelé como o mais bonito dentre os mais de mil gols de sua carreira.
UMA COINCIDÊNCIA QUE A HISTÓRIA RESERVOU À MOOCA
É justamente aqui que as duas histórias se encontram.
Na primeira vez em que Pelé esteve na capital paulista, ele ainda era o menino do Baquinho e marcou cinco gols na Rua Javari.
Cinco anos depois, voltou ao mesmo estádio já como estrela do Santos e marcou ali o gol que considerava o mais bonito de sua carreira.
O mesmo estádio. O mesmo campo. O mesmo Pelé.
