Quando uma partida de futebol transcende a mera prática do esporte
Estava um sol de rachar. Era por volta das 15h10 quando desci do ônibus na avenida Radial Leste, principal via que liga a zona leste ao centro, num ponto no cruzamento com a rua do Hipódromo, na Mooca, bairro charmoso por sua história e orgulhoso pelo seu povo. É até chamado por alguns de “República da Mooca”. Era domingo, 15 de janeiro, depois de amargar dois anos na série A-2, era estréia do Juventus no Campeonato Paulista, já que a partida da primeira rodada contra o São Paulo fora adiada, em virtude do tricolor ter entrado de férias mais tarde por causa de sua conquista no Japão.
O adversário daquele dia de calor incrível era o São Bento. Atravessei a Radial e caminhei pela pacata rua do Hipódromo, de suas casas velhas e comércios fechados, até chegar à rua dos Trilhos. Entrei na rua Visconde de Laguna e avistei um maior movimento de pessoas. Virei à direita: estava na mitológica rua Javari, de tantas histórias e reverências. Endereço que guarda o simpático estádio Conde Rodolfo Crespi, casa dos juventinos.
Pisando meus chinelos na calçada daquela rua sentia o clima caseiro. “Espera só um pouquinho que eu vou ali em casa e já volto”, dizia um senhor de idade avançada, com a camisa de cor grená do Juventus. Era um lugar que as pessoas não andavam mais de um quilômetro até o estádio. Sua ligação com o time é, acima de tudo, por causa do bairro, assim como é para os times do interior que encarnam o nome da cidade e representam suas cores por todo o estado. Ali, no pequeno bairro de imigrantes, que um dia foi repleto de indústrias e operários, toda a história e satisfação daquele povo vem do seu bairro e de seu representante pequeno, o Juventus, que enfrenta (e vence) os irmãos mais poderosos do chamado trio-de-ferro. Acho que minha simpatia por esse clube deve-se ao fato de ser o único estádio a ter jogo na zona leste (a fazendinha do Corinthians não é utilizada em jogos de profissionais). Sinto satisfação nisso, afinal, eu moro no “lado leste” da cidade.
O clima familiar e de amizade é tão grande que o bilheteiro nem me pediu o RG para bater com a carteira de estudante da pós-graduação que eu lhe entregara. Disse que não precisava. Surpresa, pois no Morumbi, na semana seguinte, o rapaz de lá quase me xingou quando eu apenas entreguei a carteira. As pessoas passam de um lado para o outro, conversando, confraternizando. Todos se conhecem. Até por isso, me senti um pouco estranho ali. Havia anos não visitava o estádio. Ia muito quando a Copa São Paulo de Juniores realizava jogos ali. Meu primeiro jogo num estádio fora na rua Javari: São Paulo 7×0 Volta Redonda. Nem me lembro o ano, mas sei que eu era garoto e meu pai estava junto, numa das raras vezes em que ele foi comigo para o campo.
Tirei uma foto da fachada do estádio e resolvi procurar uma cerveja num posto de gasolina que ficava no fim da rua, nem 300 metros distante. Entrei na área de conveniência com um ar condicionado geladíssimo. Já estavam dois homens conversando e bebericando. Peguei uma long neck, sentei numa cadeira e esperei alguém do posto atender, já que num tinha caixa. Logo depois apareceu o frentista: “Vocês fiquem à vontade aí, porque a pessoa do caixa não veio hoje. Para pagar vocês falam comigo depois”. Após saciar minha sede naquele calor infernal, deixei a garrafa na mesa e fui pagar o frentista. Ele nem conferiu se eu tinha bebido apenas aquela cerveja, perguntou apenas o que eu tinha consumido e disse o valor. “Bom jogo”, desejou ao despedir-se. Respondi sua confiança e cortesia com um “bom trabalho” e voltei para o meu destino.
Entrei no estádio e fiquei na parte coberta. Nem posso chamar de numerada, pois não há bancos, apenas o cimento duro. Essa área estava repleta. O resto da arquibancada vazia. Alguns torcedores organizados do Juventus atrás de um dos gols e uma meia dúzia de fanáticos de Sorocaba com algumas faixas do clube azul. Já estava quase na hora do início da partida quando o Juventus entrou em campo, ovacionado pelos presentes. Resolvi apoiar também. Após alguma espera apareceu o São Bento, vaiado e xingado, como todo visitante, pela torcida da casa.
A partida começou e eu, com o radinho ligado no ouvido acompanhando o Palmeiras contra o Marília, me motivava mais com o jogo que via do que com o que ouvia. Desliguei o rádio e só o ligava para saber como estava o placar. Logo no começo da peleja na zona leste o volante Alê, ex-São Paulo, abriu o marcador com um belo gol, que ele nunca fez no tricolor, dada a sua fraca condição técnica. A rua Javari virou uma festa só. Gritos e aplausos misturaram-se aos cantos da torcida organizada do time. No segundo tempo, o Juventus perdeu vários gols, mas acabou ampliando com um tento de pênalti anotado pelo centroavante Wellington Paulista.
Mas aí a síndrome de vira-lata de Nélson Rodrigues passou a afligir o time da casa e sua torcida. Alguns começaram a reclamar do número de gols perdidos e do recuo excessivo, quando o São Bento diminui, com Genílson, através de um pênalti. A pressão prosseguia e a alegria se transformou em desespero. Eu mesmo já estava agoniado, não agüentava mais aquele calvário toda hora que a bola chegava na área juventina.
Até que, aos 48 minutos da etapa final (o juiz tinha dado 4 de acréscimo) uma bola na área do clube da capital e o gol de cabeça (feito por Jeci) tomado no fim transformara a festa em tristeza e amargura. “Eu não falei? Sabia que isso ia acontecer. É sempre assim”, lamentava um jovem torcedor. Mas o jogo ainda não havia acabado e mais uma peça estava para ser pregada na história do futebol. Aos 49 minutos aconteceu uma falta na intermediária de ataque do Juventus. A partida podia ter acabado ali, mas o árbitro esperou o desenrolar do lance. Resultado: bola na área do São Bento, bate e rebate, bola na trave, goleiro no chão e num dos rebotes o zagueiro da casa Max Sandro encarnou o papel de redentor e enfiou para as redes.
Aos cinqüenta minutos acontecia a glória suprema. Os atletas reservas invadiram o gramado, a torcida foi a loucura. Parecia final de campeonato. Ninguém acreditava no que acontecia naquele acanhado campo. Ali o árbitro encerrou a peleja e o que se viu foi uma pequena briga no campo entre os jogadores das duas equipes e a torcida berrando “Juventus, Juventus”, quando um senhor que estava trás de mim na arquibancada disse: “A justiça foi feita”.
Provavelmente não foi o pensamento do São Bento. Mas, naquele dia épico do futebol mais simples, meio varzeano, que não aparece na mídia, o Moleque Travesso realizava mais uma de suas proezas. E, na lógica de seu torcedor que via seu time voltar à primeira divisão, era mais que justo o Juventus vencer no seu bairro. Quase uma imposição, uma necessidade. E como nesse esporte a lógica fica a cargo da imprevisibilidade, e a justiça nem sempre se reflete no placar final, ao menos naquele momento aquela frase, mais um pedido, fazia sentido.
Rodrigo Herrero
Revista eletrônica Rabisco
www.rabisco.com.br
Meu, que aperto no peito é esse quando falamos da Mooca ?
Meu, porque o coração acelera quando falamos do orgulho de sermos da Mooca ?
Meu, porque chega a doer quando estamos fora Mooca ?
Meu, porque relutamos tanto em sair da Mooca ?
Meu, o que significa isso ?
Meu, que magia é essa ?
Meu, que sentimento maravilhoso é esse ?
Meu, que bom ter nascido na Mooca…
Meu, que bom estar vivendo na Mooca…
Meu, que bom seria morrer na Mooca…
Valdir Terezzino
(Vadico)
Má perche a Mooca tá ficando vertical bello ??
Mi dá arrepiu passá pelas rua da Mooca e vê todas casinha antiga no chom, derrubada pra subirem aqueles prédio tudo grandi.
Má che tristeza, que paura , estão acabando com a nossa Mooca.
Aquela Mooca romântica,
Aquela Mooca tradicionale,
Aquela Mooca que tutti personi se orgulhava de olhar, de sonhar, de viver.
É vero !!! quem mora na Mooca não habita,… quem mora na Mooca vive seu bairro,… sente seu bairro, respira seu bairro, mas agora….tanto prédio construído…tanta casinha destruída e noi tutti…..piangendo insieme.
Che paura, non’e possibile que nessuno fare niente.
Per favore, não destruam a nossa Mooca, deixem o que resta de romântico continuar, não deixem que a Mooca se torne um bairro VERTICAL.
Per favore, salvem a Mooca.
M aior que tudo na vida,
O amor que sinto pelo meu bairro,
O nde passei minha infância,
C riei meus dois filhos e,
A mei intensamente…
Ana Luiza Puzzovio
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Herança que fica” style=”fancy”]O Cotonifício Crespi fechou as portas em 1967. Foi a primeira fabrica da Mooca. Depois vieram outras: Armazéns Matarazzo, Grandes Moinhos Gambá, Casa Vanordim, Tecelagem Três Irmãos, Andrauss Cia. Paulista de Louças Esmaltadas, Fábrica de Tecidos Labor, Frigorífico Anglo, Máquinas Piratininga, Alumínio Fulgor e Companhia União dos Refinadores, todas localizadas na parte baixa do bairro, onde as terras eram mais baratas, e próximas à linha dos trens da São Paulo Railway.
A proximidade com a ferrovia tinha uma razão prática: facilitar o embarque e desembarque de mercadorias. Seus motores hidráulicos eram propulsionados por água advinda de reservatórios localizados no Alto da Mooca. A estrada de ferro também trazia os operários italianos, portugueses, espanhóis e os “hungareses”, como eram chamados os imigrantes da Europa Central e Ocidental. Era gente de diferentes sotaques, que chegava para “fazer a América”, atraídos pelo sonho de trabalho farto.
Os operários da Mooca viviam em casas geminadas, sem jardim e com pequeno quintal nos fundos. As portas e janelas davam diretamente para a rua, e de dentro das casas se ouviam as conversas dos vizinhos, o pregão do verdureiro e vassoureiro , as brincadeiras das crianças e as brigas nos bares.
Quando iam e vinham das fábricas os trabalhadores costumavam visitar um capelinha próxima as orfanato feminino Cristóvão Colombo. Era o oratório que daria o nome à rua, próximo à rua da Mooca e à avenida Paes de Barros. Comunistas e anarquistas rezavam, pedindo as bênçãos da Madona para seu trabalho e suas famílias.
Adélia abre os olhos. Uma lagrima furtiva embaça os óculos. Como se voltasse de um tempo que é agora, termina a conversa:
– A Mooca mudou. Cresceu, já não há mais fábrica, não tem mais apito chamando
para o trabalho. Mas tudo continua igual, sabe? Ainda tem vendedor na porta, tem caminhão que vende gás, tem o moço que vende pão na carrocinha. Aqui quem nasce operário morre operário, com gosto para trabalhar.
Bernardete Toneto
Trecho do livro “Casa de Taipa – O bairro paulistano da Mooca em livro-reportagem”
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”O adeus de Rafael Cardamone, o embaixador da Mooca” style=”fancy”]O homem que levou a Mooca à televisão e deu ao bairro projeção nacional morre aos 78 anos.
Rafael Luongo Cardamone fazia cara de durão quando visitava os administradores regionais da Mooca para encaminhar as reivindicações do bairro. Era a lâmpada de um semáforo apagada há vários dias, a falta de policiamento ou de varrição nas ruas, a demora na coleta do lixo. Raluca, apelido que deu a si mesmo com as iniciais do nome, era pau para toda obra quando o assunto dizia respeito à Mooca. Depois em casa, escrevia em lágrimas suas poesias e depois as distribuía via fax para os amigos. Às vezes telefonava para colher opiniões sobre os versos que fazia. “Ficou bonito ou não?” Perguntava. Claro que ninguém iria contrariá-lo. Eram versos lindos de fato. Na década de 1960 comandou a escuderia Pepe Legal que participava da Gincana Kibon, um programa de TV comandado hora por Hélio Ansaldo, hora por Raul Tabajara ou Murilo Antunes Alves, mas sempre na Record.
A produção pedia coisas do tipo: uniformes da Estrada de Ferro São Paulo Railway, medalhas ou troféus de algum campeão brasileiro, comendas honoríficas de paulistanos ilustres e outras coisas mais. Quem trouxesse primeiro ganhava pontos e os vencedores doavam os prêmios a instituições de caridade. Certa vez, Raluca precisou subir na torre de uma igreja para capturar uma coruja em plena luz do dia, tudo para vencer a gincana e colocar a Pepe Legal no podium e a Pepe Legal sempre vencia.
O sucesso era grande, moradores de outros bairros queriam de algum jeito a participar. Gente do Brás, do Ipiranga, da Vila Prudente queria fazer parte da escuderia. Certa vez o grupo musical The Jordans visitou a Inglaterra e aconteceu um encontro informal com os Beatles. Um dos integrantes da banda brasileira que também é da Mooca vestia uma camiseta da Pepe Legal e as fotos foram publicadas em jornais, fazendo com que a escuderia se tornasse conhecida no Brasil todo.
Foi então que os representantes dos estúdios Hanna & Barbera, detentora da marca Pepe Legal, procuraram a escuderia e todos acharam na Mooca que algo de ruim pudesse acontecer. Pepe Legal era um herói dos desenhos animados, um cavalinho branco, de chapéu, revólver e cartucheira. Certamente cobrariam royaltties pelo uso indevido do nome e todos já preparavam uma explicação, mas na verdade o que ouviram foi elogios e agradecimentos por terem tornado o personagem do desenho, marca famosa e líder de audiência. A Pepe Legal virou uma febre e durou enquanto o programa de gincanas da TV Record esteve no ar. Restou como lembrança da época, o rosto do cavalinho esculpido no Monumento a Anchieta, localizado entre a Avenida Paes de Barros e a Rua dos Trilhos.
Raluca, também era considerado o embaixador dos Estados Unidos da Mooca pelo fato de dizer a todos que se o mundo fosse dividido, não em países, mas em bairros, a paz estaria consolidada. “Sim, porque as distâncias seriam maiores e não haveria como invadir as terras alheias sem incomodar a vizinhança”. Rafael Cardamone foi um dos primeiros a chamar a Mooca de nação, por isso era o embaixador. Para enaltecê-la dizia “Bairro é bairro, Mooca é Mooca, nada se compara.
Rafael Cardamone já vinha sofrendo há algum tempo. Primeiro fora operado de diverticulite, doença de políticos como Fidel Castro e Tancredo Neves. Depois passou a sofrer com a hipertensão, até que o coração se recusou a bater no último 30 de março. Raluca, que também era poeta, partiu. Tomara a Deus que um dia vire nome de rua, na Mooca, é claro.
Geraldo Nunes, escritor e jornalista, apresenta na Rádio Eldorado AM – 700 kHz o programa São Paulo de Todos os Tempos, aos sábados 21 horas com reprises no domingos às 6h e às 12hs.
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Rua Javari: ainda há poesia no futebol” style=”fancy”]Oi, gente! Tudo bem?
No último sábado, dia 7 de abril, resolvi fazer um programa que muitos classificariam como sendo de índio: fui assistir Juventus e Olímpia pela Segunda Divisão do Campeonato Paulista.
Por 5 reais, comprei um ingresso nas antigas e tradicionais arquibancadas do Estádio Conde Rodolfo Crespi, a famosa Rua Javari, no ainda mais tradicional bairro do Mooca.
Estacionei defronte à Pizzaria San Pedro (com mais de cinqüenta anos de bairro). Eu havia chegado às duas da tarde e o jogo começava às três, pois não há refletores na Javari e as partidas têm que terminar antes de escurecer.
Com tempo de sobra, pus-me a observar, o olho direito, geógrafo e o esquerdo, jornalista, as pessoas que começavam a se aglomerar em frente ao acanhado portão de madeira que praticamente separa a rua do gramado.
Primeira constatação: a média etária da torcida juventina é bastante alta, certamente ultrapassando os 50 anos. De pessoas mais jovens, um menino de dez, doze anos, acompanhando um visivelmente emocionado avô, e mais umas quinze pessoas entre vinte e trinta anos.
Quando faltavam vinte minutos para a três da tarde, por volta de setenta torcedores se aglomeravam à espera da abertura do portão. E ele se abriu, com os guardas chamando os torcedores pelo nome e me olhando como a dizer: “esse eu não conheço” e os orientando a passar pela catraca eletrônica (algo deslocada naquele ambiente anos 60).
Lá dentro, um cheiro de poesia, de grama seca sob o sol forte, de saudade (um tio-avô meu foi o sócio número 1 do Juventus) e de absoluta paixão pelo futebol.
Sentei na arquibancada branca e grená (capacidade para 196 torcedores, diz uma placa preta com letras amarelas) e esperei o jogo começar, sempre observando a torcida que chegava.
A organizada do Juventus (a Ju-Jovem), brinca-se, cabe numa Kombi. Mas ela chegou barulhenta, uma romântica charanga, entoando nomes de jogadores desconhecidos com uma paixão há tempos esquecida. Realmente, ela é formada por jovens, que não ultrapassam os vinte anos. Fico pensando: nas brincadeiras da segunda-feira, terão eles coragem de admitir que torcem para o Juventus da Mooca?
A partida começou, muito boa e bastante disputada. Meus olhos eram de um simples observador, já que não torço para nenhum dos dois times. Mas ao ver o amor construindo-se à minha frente na figura de um senhor de seus setenta anos, que gritava palavrões em italiano e dizia que não xinga “jogadô do Juventos”, comecei, sem me dar conta, a torcer pelo time grená.
No fim do jogo, quando o Juventus fez o gol da vitória aos 47 do segundo tempo, me peguei pulando e abraçando ‘seu’ Irineu, o italiano que xingava na sua língua natal.
Na saída, esperando em frente à porta de madeira cor de vinho, estava o menino de uns doze anos que acompanhava o avô. Flâmula na mão direita e caneta na mão esquerda, ostentava um brilho que só o puro amor pode trazer aos olhos de uma pessoa. É… como o futebol é lindo
Obs :Luiz Fernando Bindi faleceu em 22/07/2008
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Mooca e seus 452 anos” style=”fancy”]A queridinha da cidade, que desperta ciúmes em alguns como se pode ler em seus artigos, por possuir um dos menores índices de criminalidade e que ano após ano os vêm diminuindo, por ser, como cidade do interior, uma grande família, com seus hábitos italianados apesar de abrigar gente vinda de todas as partes, está completando em 17 de agosto de 2008 seus 452 anos.
A Mooca é um bairro que está se preparando para o futuro procurando preservar o que tem de tradicional como o tombamento pelo Compresp de todos os armazéns históricos da Rua Borges de Figueiredo e entre eles o prédio do Moinho Santo Antonio; melhoria no Monumento Histórico a Anchieta na Avenida Paes de Barros com a retirada dos postes que ficavam em sua frente; com o re-calçamento de ruas e avenidas, como a Paes de Barros, com a demolição de velhos armazéns e casas e a construção de conjuntos habitacionais e prédios de moradia, alguns de primeiro nível.
Até a velha Avenida Henry Ford está sendo projetada para ser uma das modernas avenidas com remodelação completa em seu leito carroçável, hoje intransitável, e que poderá abrigar os barzinhos da moda com mesas do lado de fora e musica ao vivo, além de casas de espetáculos, cinemas,etc. Lá não há residências cujos moradores poderiam ser incomodados e será o acesso ao grande Shopping Mooca.
Há ainda, na parte de trás dos armazéns o desvio da linha férrea que atendia e ainda atende alguns armazéns e que agora poderá, num projeto turístico futuro, fazer viagens de dia ou noturnas levando a população aos barzinhos, teatro, cinema e ao shopping que está sendo construído onde era a antiga fábrica da Ford.
A Mooca ainda têm muitos problemas como o “imbróglio” do Shopping Capital que torcemos para que as autoridades e o polêmico proprietário do mesmo cheguem num ponto viável a todos, principalmente aos moradores da Mooca.
O trânsito, pelas vias do bairro, está começando a ficar complicado pelo aumento da frota de veículos e sem planejamento de melhoria do transporte urbano e das vias de comunicação. Com o crescimento da construção de prédios e casas a população mooquense deverá aumentar e se continuar sem planejamento, sem nada ser feito, o trânsito deverá piorar e muito.
Mas a Mooca, para ocupar essa posição privilegiada conta com a participação ativa de seus moradores através de entidades que procuram sua melhoria tanto na segurança como na vida cultural e melhoria da comunidade como, por exemplo, a Associação Comercial de São Paulo – Distrital Mooca, os CONSEGs Alto da Mooca, Mooca, Belém, Brás, a AMO a Mooca, os Rotarys da região e outras que estão sempre ouvindo seus ativos moradores procurando minimizar ou sanar os problemas que podem aparecer.
E assim nossa querida Mooca está completando 452 anos cada vez melhor.
Parabéns “bella”, “bello”, ativos moradores da Mooca.
Euclydes Barbulho
Escritor – Autor do Livro Mooca 450 anos – Passando pelo Túnel do tempo
SINTO SAUDADES DA MOOCA
QUE MARCOU A MINHA VIDA!
QUANDO VEJO RETRATOS,
QUANDO SINTO CHEIROS,
QUANDO ESCUTO UMA VOZ,
QUANDO PESQUISO O PORTAL,
QUANDO ME LEMBRO DA MOOCA…
EU SINTO SAUDADES!!!
SINTO SAUDADES DE AMIGOS
QUE NUNCA MAIS VI,
DE PESSOAS COM QUEM
NÃO MAIS FALEI OU CRUZEI…
SINTO SAUDADES DA MINHA INFÂNCIA,
DA MINHA PRIMEIRA PAIXÃO,
DA SEGUNDA, DA TERCEIRA, DA PENÚLTIMA
E DAQUELAS QUE AINDA VOU TER,
SE A HARMONIA DO UNIVERSO QUISER…
SINTO SAUDADES DO PRESENTE,
QUE NÃO APROVEITEI DE TODO,
LEMBRANDO DO PASSADO
E APOSTANDO NO FUTURO…
SINTO SAUDADES DO FUTURO,
QUE SE IDEALIZADO,
PROVAVELMENTE NÃO SERÁ
DO JEITO QUE EU PENSO QUE VAI SER…
SINTO SAUDADES
DE QUEM ME DEIXOU
E DE QUEM EU DEIXEI!
DE QUEM DISSE QUE VIRIA
E NEM APARECEU…
DE QUEM APARECEU CORRENDO,
SEM ME CONHECER DIREITO…
DE QUEM NUNCA VOU TER
A OPORTUNIDADE DE CONHECER.
SINTO SAUDADES DOS QUE SE FORAM
E DE QUEM NÃO ME DESPEDI DIREITO!
DAQUELES QUE NÃO TIVERAM
COMO ME DIZER ADEUS…
DE GENTE QUE PASSOU
NA CALÇADA CONTRÁRIA DA MINHA VIDA
NA MOOCA
E QUE SÓ ENXERGUEI DE VISLUMBRE.
SINTO SAUDADES DE COISAS QUE TIVE
E DE OUTRAS QUE NÃO TIVE
MAS QUIS MUITO TER!
SINTO SAUDADES DE COISAS
QUE NEM SEI SE EXISTIRAM.
SINTO SAUDADES DE COISAS SÉRIAS,
DE COISAS HILARIANTES,
DE CASOS, DE EXPERIÊNCIAS…
SINTO SAUDADES DOS LIVROS QUE LI
E QUE ME FIZERAM VIAJAR!
ESCREVER TAMBÉM!
SOBRE A MOOCA!
SINTO SAUDADES DOS DISCOS QUE OUVI
E QUE ME FIZERAM SONHAR.
SINTO SAUDADES DAS COISAS QUE VIVI
E DAS QUE DEIXEI PASSAR…
SEM CURTIR NA TOTALIDADE.
QUANTAS VEZES
TENHO VONTADE ENCONTRAR
NÃO SEI O QUE…
NÃO SEI ONDE…
PARA RESGATAR ALGUMA COISA
QUE NÃO SEI O QUE É
E NEM SEI ONDE PERDI…
VEJO O MUNDO GIRANDO
E PENSO QUE PODERIA ESTAR
SENTINDO SAUDADES EM ITALIANO,
ALEMÃO, POLONÊS, PORTUGUÊS…
MAS QUE MINHA SAUDADE,
POR EU TER NASCIDO NA MOOCA OU NÃO,
NÃO IMPORTA, AQUI EU VIVI…
SÓ FALA PORTUGUÊS ITALIANADO,
EMBORA, LÁ NO FUNDO, POSSA SER
POLIGLOTA.
ALIÁS, DIZEM QUE COSTUMA-SE
USAR SEMPRE A LÍNGUA PÁTRIA,
COM SOTAQUE DO BAIRRO,
ESPONTANEAMENTE.
QUANDO ESTAMOS DESESPERADOS…
PARA CONTAR DINHEIRO…
FAZER AMOR….
DECLARAR SENTIMENTOS FORTES…
SEJA LÁ EM QUE LUGAR DO MUNDO
ESTEJAMOS.
EU ACREDITO QUE UM SIMPLES “IU TE AMO”
“ICH LIEBE DICH”. “SEHNSUCHT”
OU SEJA LÁ COMO POSSAMOS TRADUZIR
SAUDADE EM OUTRA LÍNGUA,
NUNCA TERÁ A MESMA FORÇA
E SIGNIFICADO DA NOSSA PALAVRINHA.
AINDA MAIS QUANDO DIZEMOS:
“TENHO SAUDADES DA MOOCA”.
TALVEZ NÃO EXPRIMA CORRETAMENTE
A IMENSA FALTA QUE SENTIMOS
DE COISAS OU PESSOAS QUERIDAS.
E É POR ISSO
QUE TENHO MAIS SAUDADES DA MOOCA…
PORQUE ENCONTREI DOIS VERBETES
PARA USAR TODAS AS VEZES
EM QUE SINTO ESTE APERTO NO PEITO,
MEIO NOSTÁLGICO, MEIO GOSTOSO,
MAS QUE FUNCIONA MELHOR
DO QUE UM SINAL VITAL
QUANDO SE QUER FALAR
DE VIDA E DE SENTIMENTOS.
ELES SÃO A PROVA INEQUÍVOCA
DE QUE SOMOS SENSÍVEIS!
DE QUE AMAMOS MUITO
O QUE TIVEMOS NA NOSSA MOOCA…
E LAMENTAMOS
AS COISAS BOAS QUE PERDEMOS
AO LONGO DA NOSSA EXISTÊNCIA
NA NOSSA MOOCA E
NA NOSSA AUSÊNCIA.
HUGO LINZMAIER
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”A Javari é logo ali” style=”fancy”]Estádio charmoso,futebol retro e ótimas opções para o antes e o depois.
Ir a um jogo no estádio do Juventus virou balada.
James Scavone
Não era jogo do meu Corinthians, nem do São Paulo e do Palmeiras dos meus amigos.Era jogo do Juventus ontra o Barueri,marcado para as 11h. de domingo. Sete amigos,torcedores do trio de ferro paulista, resolveram pela primeira vez ir ao estádio juntos. Isso só poderia acontecer na Rua Javari para torcer pelo segundo time do coração de todo paulistano: o Juventus.
Às 8h30,seguimos direto para a padaria Di Cunto, uma lenda da Mooca. Entrei com uma camisa do Juventus. Queria que viessem a mim com os punhos fechados dizendo “Forza, Juventus”. Ninguém veio.
Barriga forrada, resolvemos ir dali a pé até a Javari. Sentamos na arquibancada. Assim que o juiz apita, começam as piadinhas. O jeito de um dos jogadores do Juventus lembra o boleiro de fim de semana.Logo ganha da gente o apelido de Churrasco. A torcida ao redor parece não ligar. Fora um ou outro, ninguém conhece direito os jogadores. Ouvimos o sotaque ítalo-paulistano em cada comentário. Há um sentimento de camaradagem entre os sessentões.
A melhor chance do Juventus no primeiro tempo sai no finalzinho. Mas o atacante escorrega e revolta a torcida. A trapalhada foi o assunto da espera pela segunda etapa. Festa de arromba, de Erasmo Carlos, abre o show do intervalo seguida de outras da Jovem Guarda. Me infiltro em um grupo de torcedores. Digo que vou escrever sobre o Juventus,um deles conta que tem um escritor que fica sempre atrás do gol torcendo como um louco. É Ignácio de Loyola Brandão, fada Javari.
O jogo no segundo tempo segue morno, e nós levamos 42 minutos para explodir de emoção. Não porque saiu um gol.Mas porque uma pomba resolveu descarregar sua carga bem na cabeça de um dos nossos.Piada para o resto da vida.
Depois da pomba, o juiz apitou o fim da partida. Fuçamos um olhando para o outro enquanto o estádio se esvaziava. Aquele time-amante, segundo lugar em nossos corações, tinha realmente seu encanto. Fomos ao Bar do Elídio, outra tradição da Mooca, e brindamos ao Juventus, ao futebol e às mulheres. No dia seguinte, minha pele me lembrava da falta de protetor solar. Estava da cor da camisa do Juventus.
Obs : Na mesma matéria, o autor também apontou seis razões para ir à Javari :
1) Amigos corintianos, palmeirenses, santistas e são-paulinos podem torcer lado a lado, e pelo mesmo time – o Juventus, é claro.
2) Antes do jogo, traçar umas bisnagas, doces e pães da padaria Di Cunto uma lenda da Mooca.
3) No estádio do Juventus,fica-se muito próximo do campo. Ao contrário de outros estádios,jogadores, técnicos, juiz e bandeirinhas ouvem o que você grita.
4) No intervalo,coma o canoli, iguaria doce vendida nos corredores da Javari pelo mesmo homem há anos.
5) É possível trombar nas arquibancadas com freqüentadores ilustres da Rua Javari, como o locutor Osmar Santos e o escritor Ignácio de Loyola Brandão.
6) Depois do jogo, esperar o domingo passar no Bar do Elídio, com decoração futebolística, que tem chope e acepipes inesquecíveis.
Obs : Matéria publicada na Revista Vip de abril/2008
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Do mascate ao empreendedor – uma família da antiga Mooca” style=”fancy”]“A Mooca nasceu de um antigo caminho de tropeiros do século XVIII, através do loteamento de chácaras limitadas pelo Clube Paulistano de Corridas de Cavalos, freqüentado pela aristocracia paulistana do período. Nos anos de 1920, a região era servida por uma linha de bonde de tração animal e pela Estrada de Ferro São Paulo Railway, que partia da Estação da Luz. O traçado da ferrovia atravessava a terra paulista facilitando o escoamento do café das fazendas entre Jundiaí e Santos. O tempo exigiu a construção de pontes sobre o Rio Tamanduateí (1872-1875), unindo o bairro ao Cambuci e ao Ipiranga.
No programa urbanístico regional, uma área ajardinada – o Parque D. Pedro II – integrava a várzea do Carmo à cidade. Em 1877, quando a Central do Brasil incorporou a São Paulo Railway, as chácaras de José Seabra e Bento Pires de Campos, nas várzeas do Rio Tamanduateí, foram valorizadas e loteadas[1].
O projeto urbanístico de 1891, que pavimentou o antigo eixo – a rua da Mooca – integrava a várzea ao centro da cidade. Em 1898, as obras de aterro e aprofundamento do leito do Tamanduateí favoreceram a implantação de ferrovias e fábricas, transformando a Mooca em parque industrial e operário.
A expansão da lavoura algodoeira no interior definiu a função têxtil do bairro, constituindo o expressivo Cotonifício Crespi, no ano de 1897. Ao lado das tecelagens, a Cia. Antártica Paulista, a Calçados Clark (1905), a Lorenzetti (1923) e a Cia. União dos Refinadores (1929) se instalaram no bairro. Residências simples e geminadas, construídas em torno das indústrias foram as moradias dos imigrantes italianos e espanhóis, primeiros trabalhadores dessas fábricas. A população de São Paulo, que em 1812 era de 31.885 habitantes, passou, em 1910, a 375.439 habitantes. As condições de vida e trabalho do imigrante-operário, no período, não eram boas. A inexistência de leis trabalhistas permitia que os trabalhadores ficassem à mercê das arbitrariedades patronais. A labuta de 16 horas diárias levava o operário a se alimentar e dormir nas dependências das fábricas. A presença de mulheres e de crianças nas fábricas favorecia mecanismos de exploração e rebaixamento dos salários. Parte dos imigrantes instalaram-se também em cortiços com péssimas condições de salubridade, ou em vilas operárias, construídas pelos industriais. A do Conde Crespi atendia somente aos trabalhadores qualificados.
Viver em bairros como a Mooca, Brás, Bom Retiro, Belém, Cambuci e Liberdade, próximos à Estação de Ferro Santos-Jundiaí, nas cercanias da Hospedaria dos Imigrantes, foi escolha natural da maioria dos imigrantes italianos, portugueses, espanhóis, sírio-libaneses (maronitas, muçulmanos e judeus), japoneses e outros, a partir dos últimos anos do século XIX. A entrada sucessiva de imigrantes da mesma origem favoreceu a formação de comunidades étnicas, onde valores, costumes e tradições típicas se fortaleciam, transformando as regiões citadas em verdadeira “babilônia” de crenças. Conquanto o grande número de igrejas revelasse uma maioria de católicos, mesquitas, sinagogas, templos budistas e centros-espíritas atendiam às necessidades espirituais de italianos, espanhóis, portugueses, sírio-libaneses, judeus e outros grupos de imigrantes que somando-se aos migrantes nacionais, tornaram a Baixa-Mooca um bairro-étnico por excelência.
……….
Nas ruas da Baixa-Mooca dos anos de 1950, a pequena circulação de automóveis permitia brincadeiras da criançada, sobretudo as partidas de futebol. Era comum a presença de verdureiros, peixeiros, carvoeiros, amoladores de facas e tesouras, pequenos ambulantes vendendo as spholiatelas, bijus e pedaços de pizzas. A despreocupação com o perigo e a segurança era geral, reveladas pelas portas destrancadas das moradias, fechadas somente ao anoitecer.
Até a chegada da Televisão, o rádio era o entretenimento diário das mães, envolvidas com as intermináveis e melosas novelas da Rádio São Paulo. A TV Tupi, a do indiozinho, nos envolveu desde o início, especialmente quando começaram as programações infanto-juvenis. O Sítio do Pica-Pau-Amarelo, diariamente apresentado pelo casal Júlio Gouveia e Tatiana Belinky, encantava-nos assim como, aos domingos, o esperado Teatro de Juventude. Desenhos do Tom & Jerry, do Pica-Pau e de outros, em branco e preto, junto com as revistas em quadrinho (compradas ou trocadas) completavam os momentos de lazer. Além desses programas, sessões Zig-Zag nos cines Santo António e Roma na Alcântara Machado, a Radial Leste. Não somente o Repórter Esso levava nossos pais para a frente da TV, mas as operetas e os clássicos da TV de Vanguarda, no antigo canal. Nos anos de 60 como adolescentes, tivemos o privilégio de momentos alegres e inesquecíveis como da construção de Brasília, amplamente divulgada pela imprensa mundial, pelas conquistas dos campeonatos mundiais de futebol, pelos festivais da musica popular brasileira e pelos bailes de formatura que embalaram as primeiras conquistas e namoros. A vivência das crianças se alternava entre a casa e a rua, espaço recreativo das famílias da Mooca, no período. A trabalhosa limpeza dos assoalhos encerados e a preocupação das mães em preservá-los, transformava a rua quase sem movimento de carros, em espaço aberto e livre. Futebol com bolas de meia, nos jogos com de bolas de gude, tampinhas, Bafo (bater figurinhas com as mãos) e o pião, jogado com maestria e precisão, eram as brincadeiras mais comuns dos meninos. Confeccionar e empinar pipas ou “capuchettas” era questão de criatividade e destreza. As competições envolviam a maioria das crianças da Coronel Cintra e adjacências, depois de findas as aulas do Brincar de casinha, confeccionando roupinhas para as bonecas, cozinhando, imitando nossas mães, eram atividades que nos envolviam, por horas. Pular corda, brincar de se esconder, de roda, pular amarelinha e jogar pedras (cúbicas e cuidadosamente escolhidas), eram as brincadeiras das meninas, nas portas de suas casas. Freqüentemente chamadas pelas nossas mães para compras e alguns afazeres domésticos, nós meninas, sentíamos certa inveja das livres e movimentadas brincadeiras dos meninos.
As dramáticas e divertidas enchentes do Tamanduateí
A instalação de novos estabelecimentos fabris e o aumento das moradias fizeram com que as regulares enchentes do Rio Tamanduateí se tornassem catastróficas. No verão, nos dias das grandes chuvas, as ruas da Baixa-Mooca paravam, à espera da elevação do nível do rio. Enquanto a água não atingisse a Rua da Mooca, as aulas prosseguiam. Barcos do Corpo de Bombeiros ajudavam as crianças a chegar ao Grupo Escolar Eduardo Carlos Pereira e ao Firmino de Proença. As aulas eram interrompidas quando não havia mais condições de passagem. Em casa, assistíamos à preocupação de nossos pais.
Assim que as águas baixavam, as famílias procediam à limpeza dos porões e de suas casas, cansadas de esperar pelos carros de limpeza da Prefeitura. Nesse momento, famílias se irmanavam e a solidariedade era total. A força da água e o seu refluxo, depois de horas e até dias, nos mantinha atentos e curiosos, e não impedia que divertidas brincadeiras nascessem nas ruas cheias de lama. Depois da limpeza, as aulas recomeçavam e a rotina voltava. A regularidade das catástrofes em bairro próximo ao centro da cidade trouxe enormes transtornos às autoridades municipais, que se preocupavam em desobstruir bueiros, enquanto os projetos de canalização do rio não se efetivavam.
A partir da década de 50, projetos de vias aéreas expressas foram concretizados. A atual Avenida Alcântara Machado, a Radial Leste, terminada em 1957, interligou o centro da cidade aos bairros da região leste, em expansão. A antiga rua Mem de Sá, travessa da rua da Mooca, dividida pela Radial Leste, separou a Mooca do Brás.
Essas e outras transformações alteraram a configuração do bairro e a decisão de seus moradores. Famílias dos primeiros imigrantes transferiram-se para outros locais, em especial ao Alto da Mooca, Brás, Belém e Ipiranga.
Autora: Rachel Mizrahi
Trechos do livro Do Mascate Ao Empreendedor – Uma Família Da Antiga Mooca
Já faz mais de quarenta, cinqüenta
Anos que não voltam mais
Mas que minha memória alenta
O reviver desses tempos imortais
Tempos de que nada se lamenta !
Tempos de “ Pandiá “
Na esquina da Paes e a Jumana
Em que nesse lugar hoje há
Grande prédio com vista bacana…
Bom joguinho de bola era lá !
Dona Sara, nossa diretora
Preocupada com nosso bem-estar
Chamava nossa genitora
Pois da época era peculiar
O respeito com a professora !
Brasilux, MMDC, Osvaldo Cruz !
Entre outras também memoráveis
Foram fontes do saber e de luz
De momentos sutis e notáveis
Que em nosso “Ser” ainda reluz
Patriarca, Imperial , aliança !
Um cinema em cada canto,
Cada matinée, uma festança
Em cada “fita” um encanto
Alegrando o adulto, a criança !
Mas o tempo passava ligeiro
Nova fase se iniciava
Em que cada menino faceiro
Mesma escola noturna cursava
Pra trabalhar quase que o dia inteiro
Encarar o “ busão vinte e oito “
Pra na Praça Clóvis descer
Correr de lado a lado, afoito
E um justo salário receber
Já aos “quatorze”, bem antes dos “dezoito “
Os fins de semana chegavam
Nos bailinhos de “ pró-formatura “
Nas garagens “ Pic Ups” tocavam
LPs do Ray Coniff com candura
E os casais, juntinhos, dançavam !
Na “Oratório” ou no “Mac da Natal”
Entre outros, “Flamingos” e “Sun Sete”
Tocavam de forma genial
Som dos Beatles que ainda nos remete
A divagar naquele belo astral
Em tudo encontravamos graça
Até mesmo nas confusões
Em cada rua, cada praça
Com as gincanas das televisões
Por brincadeira, ou até por pirraça !
Pizzaria do Alberto ou Romanato
De aliche , muzzarela , calabreza
Não importa qual fosse o prato
Mostravam com toda clareza
Que a união da família era fato !
Oh Mooca tão tradicional
Do Brasil tens o justo respeito
Por seres internacional
Pelos bons filhos que tens feito
“ bairro-cidade” perfeito afinal !
Adilson Zotovici
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Na Mooca” style=”fancy”]Na Mooca tenho a família
que nunca ira me deixar;
os amigos que aqui eu tenho,
não são os “belos da Mooca ” que ficarão lá,
O céu da Mooca tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Na Mooca tenho a família
que nunca irá me deixar.
Minha Mooca tem pizzarias
Que tais não encontro eu cá;
Na javari e parque da Mooca,
Mais prazer encontro eu lá;
Na Mooca tenho a família
que nunca irá me deixar.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem antes comer pizza e beber vinho com a família;
Que nunca irá me deixar…
Ulysses Mourão
(Filho do Jacaré que jogou no Parque, Juva e foi do Pepe Legal)
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Homenagem a Guido Piva” style=”fancy”]Foi-se o poeta…
calaram-se os versos
que ficaram flores!
O vento passou e
levou as cores,
para enfeitar o infinito…
A Mooca chora
em preto e branco!
Vai poeta maior…
segue o seu caminho de luz,
vai versejar para as estrelas,
contar histórias pra lua,
sussurrar nos seus ouvidos
seus poemas coloridos.
Vai vivapoesiaviva Guido!…
J.R.Cônsoli
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Moleque Travesso” style=”fancy”]“Mas você não vai assistir ao jogo do Palmeiras?”, perguntou meu pai, incrédulo. “Hoje, o Juventus é a prioridade”, expliquei com serenidade. Se o Palmeiras vencesse seu jogo contra o São Caetano, garantia matematicamente sua ida às semifinais do Campeonato Paulista. Se o Juventus derrotasse o Guarani, afastava de vez o risco de rebaixamento. Não titubeei. Botei a camisa do moleque travesso e me dirigi ao estádio da Javari para acompanhar o dramático embate.
Deixemos o purismo de lado. Quem torce pelo Juventus, quase sempre também torce por outro time. Mas se você mora na Mooca, é obrigação acompanhar o desempenho do Juventus e, sempre que possível, ir aos jogos. Isso não é tarefa fácil, pois, como o estádio não tem iluminação, os jogos normalmente acontecem no meio da semana, em horário que todos costumam estar no trabalho. Quando o calendário ajuda, sobra um jogo numa manhã de domingo ou num sábado à tarde, como foi neste caso..
Comigo estavam o também palmeirense Rafael e o são-paulino Leonardo, que desde sempre moram no bairro. Mas existe uma lei tácita entre os torcedores do Juventus. Uma vez dentro da Javari não se pergunta, muito menos se celebra resultados de outros times. Desta forma, alguns poucos torcedores foram merecidamente vaiados quando comemoram o resultado parcial de 2 a 0 para o Palmeiras, anunciado pelo sistema de som.
Tudo indicava que seria uma tarde inesquecível. A torcida organizada Ju Jovem estava lá, o placar eletrônico funcionava perfeitamente e era possível ver jovens sujos com cara de Cinema da USP gravando um provável documentário. Logo aos 3 minutos de jogo, o zagueiro do Guarani foi chutar, a bola rebateu em Kanu e a bola entrou no gol campineiro. Aos 27, o mesmo Kanu, o atual craque do Juve, sofreu um carrinho no meio de campo e o juiz corretamente expulsou o jogador do Guarani. Fomos para o intervalo com o placar favorável e um homem a mais. Desta forma, para garantir os meus cannoli, nem me importei em enfrentar uma grande fila que tradicionalmente se forma ao redor de Seu Toninho.
Mas nem tudo era doce naquele sábado. O Guarani, que também corre sério risco de cair para a segunda divisão, voltou engajado a reverter a situação. Empatou aos 11, de cabeça, e virou a partida aos 34, num bate-rebate dentro da área. Até mesmo as irritantes meninas que gritavam durante todo o jogo como se estivessem num show da Xuxa desanimaram. Sem saber se apoiava ou elegia os culpados, a torcida do Juventus não arredava pé. Quando o adversário estava mais próximo do terceiro gol do que o Juve do empate, o juiz marcou falta na entrada da área do Guarani. O relógio apontava 47 minutos do segundo tempo. Dedimar bateu com categoria, tirou da barreira e empatou o jogo: 2 x 2. O estádio explodiu em euforia. Emocionados, velhos e garotos se abraçavam. Pais jogavam seus filhos para o alto.
Um minuto depois, Marcos Vinícius ainda perdeu um gol feito, acabando com a esperança de uma virada histórica. O juiz deu o apito final e os mais de 3 mil torcedores deixaram o estádio felizes com a reação, mas extremamente preocupados com o futuro. Semana que vem, o Juventus enfrenta o São Paulo. Se perder, praticamente dá adeus à elite do futebol paulista e retorna momentaneamente ao ostracismo. Enfrentando a lógica, o Juventus respira por aparelhos. Resta-nos a Copa do Brasil, o caminho mais curto para a Taça Libertadores da América. Já estamos na 2ª fase do torneio e vencemos o jogo de ida, contra o Náutico, por 2 a 0. Os mais otimistas acreditam que, se tudo der certo, no final de 2009, estaremos no Japão, disputando o mundial interclubes. Se a sorte não estiver ao nosso lado, voltaremos à estaca zero, ostentando com orgulho a camisa grená com o “J” no peito.
O Juventus se encontra à margem de um cenário preenchido por transações milionárias, interesses de empresários, emissoras de TV, jogadores ambiciosos. Talvez seja por este motivo que o clube sobrevive e continua a cativar os torcedores do bairro. Não me arrependi de ter deixado o Palmeiras em segundo plano, neste sábado. A Javari foi o primeiro estádio que fui na vida. Levado pela mão por meu pai e acompanhado por meus irmãos e minha vó Marché. Na época, xingar o juiz sem sofrer censura, cantar os hinos criados pela torcida e aprender a quebrar a casca sem perder o amendoim eram rituais de passagem. É o que pretendo fazer quando tiver os meus filhos. Sei bem que é só uma visão romântica. Mas é daquelas que seria uma estupidez abdicar.
Fabio Chiorino
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Memórias políticas da velha Mooca” style=”fancy”]Tese mostra como adhemarismo e janismo mimetizaram práticas adotadas pelo PCB e desfiguraram um dos berços do sindicalismo paulista
Talvez uma alusão à histórica Praça Vermelha da antiga União Soviética, a capital de São Paulo também teve a sua Praça Vermelha, reduto do Partido Comunista Brasileiro, no bairro da Mooca, zona Leste da cidade. Berço do sindicalismo paulista da primeira metade do século 20, ali a força política e ideológica dos moradores era tão grande que nas eleições de 1947 o partido obteve 34% dos votos válidos, elegendo três dos quinze vereadores comunistas. No entanto, naquele mesmo ano, o partido começou a dar sinais de fragilidade e de não resistir às pressões externas e à ilegalidade, decretada em maio daquele ano.
Vista parcial da Mooca, com o Cotonifício Crespi em primeiro plano, em foto do início do século 20: bairro passa por processo de “desindustrialização” a partir de 1950 Se antes a Mooca era um dos bairros mais importantes da cidade, a partir dos anos 50 passa por um processo de “desindustrialização” com o conseqüente abandono e degradação. Antes, porém, a Mooca detinha a maior concentração industrial, principalmente indústrias têxteis e de alimentos. Era um bairro que concentrava grandes populações de imigrantes italianos (maioria), espanhóis, portugueses e “hungareses” – como são chamados, ainda hoje, os imigrantes oriundos da Europa centro-oriental, russos, lituanos, ucranianos, iugoslavos e húngaros. “Por conta dessa variedade de origens, a Mooca foi um dos bairros mais heterogêneos da cidade de São Paulo”, diz o professor de história Adriano Luiz Duarte, da Universidade Federal de Santa Catarina.
Um exemplo disso deu-se com a criação, ainda em meados de 1945, dos Comitês Democráticos e Populares, sob inspiração do recém-legalizado Partido Comunista. O pesquisador explica que inicialmente esses comitês deveriam funcionar como núcleos para agregar simpatizantes e potenciais eleitores do partido. No entanto, com o envolvimento nas questões específicas dos bairros, rapidamente esses comitês se transformaram em referência tanto para os pedidos de moradores quanto eletricidade, pavimentação, escolas, postos de saúde, quanto de centros de atividade social, onde eram ministrados cursos de alfabetização de adultos, corte e costura e marcenaria.
Seu imenso espólio organizacional era avidamente disputado por partidos e políticos locais. A Mooca, com quase 100 mil habitantes, era o bairro mais populoso da cidade de São Paulo, além de possuir o maior colégio eleitoral, com mais de 30 mil eleitores. Os maiores beneficiados com a “extinção” do PCB eram duas figuras conhecidas no cenário político nacional: Adhemar de Barros e Jânio Quadros.
“Adhemar havia montado com o seu PSP (Partido Social Progressista) uma sofisticada máquina partidária em cada bairro da cidade de São Paulo. Possuía um diretório distrital, nomeando um juiz de paz e um subdelegado de polícia. Estes nomeavam os então chamados inspetores-de-quarteirão, de modo que todo o bairro fosse esquadrinhado e conhecido em minúcias”, explica Duarte, que acaba de defender tese no IFCH sobre Cultura popular e cultura política no após-guerra: redemocratização, populismo e desenvolvimento no bairro da Mooca, 1942-1973, sob orientação do professor Michael Hall.
Segundo explica, essa azeitada máquina era capaz de mobilizar todas as atividades onde pudesse manifestar a sua influência, assim como conhecer todas as demandas e todos os descontentamentos da população do bairro. Além disso, toda a máquina clientelista – dos pedidos de emprego às demandas por melhorias urbanas – devia passar pelas instâncias do partido.
“O curioso é que, ao menos no bairro da Mooca, a máquina partidária do PSP foi criada a partir de uma série de organizações locais, como clubes de futebol, associações culturais, clubes de dança, entre outras atividades sociais. Quer dizer, o PSP se aproveitou da capilaridade dessas organizações e se constituiu como partido político operando de modo semelhante ao que já fizera, no recém-passado, o PCB”, observa Duarte.
Jânio Quadro, por sua vez, iniciou sua carreira política como vereador em 1947. Iniciou sua trajetória política percorrendo os bairros mais distantes da cidade, colhendo seus problemas e suas carências e depois apresentando-as na tribuna da Câmara. De 1947 a 1952 Jânio foi construindo sua imagem como uma espécie de paladino da periferia e, em suas andanças, seus principais interlocutores eram as chamadas Sociedades Amigos de Bairro. Essas organizações, surgidas em cada vila da cidade, eram herdeiras diretas dos comitês democráticos e populares de inspiração comunista. “Ou seja, tanto o adhemarismo quanto o janismo cresceram no vácuo deixado pela ilegalidade do PCB, disputando e dando continuidade ao clamor de reivindicações da população”, explica Duarte.
O janismo, por exemplo, consolidou suas bases operando por dentro das mesmas organizações já existentes do bairro – clubes de futebol, associações culturais das colônias e clubes de dança. A atuação de Jânio e Adhemar na Mooca revela que as condições específicas dos bairros da cidade eram decisivas para que se pudesse compreender o que se costuma denominar-se populismo. “Atribuir o sucesso eleitoral desses líderes populistas unicamente ao seu carisma pessoal, é, no mínimo, um equívoco”, diz Duarte.
Ambos se sustentavam por meio de sofisticadas redes de contatos com organizações locais que mediavam o seu carisma junto aos eleitores. O contato direto, a partir dessas associações locais com moradores do bairro, segundo Duarte, foi inspirado, evidentemente, nas práticas dos comunistas, com os quais disputavam espaço.
Verifica-se ainda que Adhemar e Jânio, a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) também alcançaram expressiva organização no bairro da Mooca. Mas, de acordo com pesquisador, a UDN nunca conseguiu ser muito popular, uma vez que era identificada como o “partido do fraque e da cartola”, como a denominavam. “De fato, não parece ser a composição social que diferencia a UDN do PSP ou o janismo; a diferença talvez estivesse num difuso sentimento de superioridade expresso pelos seus integrantes e, por conseqüência, na disposição de se envolver nas árduas disputas locais”, avalia o professor.
Eram freqüentes as contendas, ainda que veladas, apenas na base da provocação. Nesse contexto, os opositores da UDN a rebatizaram de “Unidos Destruiremos a Nação”, ao que respondiam acusando o PSP de “Picaretas Sempre Picaretas”.
A relação desses políticos com moradores da Mooca foi reduzida a uma relação meramente clientelista em que a moeda de troca era o voto. “Essa interpretação é equivocada por dois aspectos: primeiro porque os moradores da Mooca jogavam com políticos negociando as suas solicitações, como melhorias para o bairro. A relação era uma via de mão dupla. Parte do sucesso de políticos como Jânio e Adhemar estava na negociação direta entre os políticos e as classes populares de bairros periféricos.
Fonte : Jornal da Unicamp – Edição 190 – 16 a 22/09/2002
ANTONIO ROBERTO FAVA
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”O verdadeiro aroma da Mooca” style=”fancy”]Muitos forasteiros, e outros visitantes do bairro da Mooca, diziam na década de sessenta que estas áreas tinham um cheiro característico. Comentavam que, atravessando as ruas principais do bairro, entrava pelas narinas um odor de alho frito no azeite e de molho de tomate com manjericão, misturando-se com o do café e do açúcar, provavelmente da torrefação e do refino da União.
Falavam do cheiro de fumo usado na fabricação de cigarros, que saía das altas chaminés da Souza Cruz, na Rua do Oratório. Outros dissertavam sobre o cheiro da Mooca identificando-o como cheiro de fumaça, referenciando-se aos trens que passavam pela Rua dos Trilhos.
Na década de setenta, a observação era de que carros barulhentos, sons ruidosos das buzinas e sirenes, misturando-se aos cheiros dos pastéis de feira, perfumes baratos, desodorantes vencidos, mais o cheiro de gente, misturado ao odor da gordura dos churros (das madrugadas, após os bailes de formatura), feitos pelo falecido Toninho da Rua Ana Nery, acrescentado pelos cheiros de molhos de tomates das macarronadas, mais os queixumes do dialeto moquense, de “orra meu!”, manifestava-se um odor sonoro, característico ao bairro.
Um cronista de um jornal de São Paulo, também antigo, dizia que a Mooca cheirava a fritura. Argumentava que o bairro era quase todo de casas baixas, existindo somente alguns sobrados, e que ao passar pelas calçadas antigas sentia-se o cheiro de temperos no feijão, o molho que refogava as macarronadas das famílias, bifes fritos em frigideiras e doces caseiros. Recordava até do “crostoli”, um doce feito com massa e frito no óleo, e polvilhado com açúcar em cima.
Hoje, com o intuito de ampliar a verticalização na Mooca, os novos escritórios de engenharia desenvolvem empreendimentos que trazem o cheiro da mata (por meio de uma essência aquecida que exala o odor), sons de pássaros (eletrônicos), carros circulando e efeitos de amanhecer e anoitecer (por meio de um jogo de luzes) em sua composição.
O cheiro que conheci, e sinto até hoje na memória, um cheiro mais gostoso e agradável, eles não conseguem reproduzir: o cheiro do sanduíche “Bauru de Carne” do bar do Aníbal (na esquina da Rua Itapira com Visconde de Parnaíba), misturando-se com o odor do malte da cerveja, servido nas mesas colocadas nas calçadas, o jogo do patrão e soto, os gritos, todos fumando sem parar, blasfemando e trocando insultos, encerrado em risos e fraternos abraços.
O cheiro atraente e inconfundível… das pipocas… do “machadinho”, aquele doce duro e delicioso (o doceiro quebrava o caramelo com a machadinha), e o algodão doce… vendidos na porta da escola (Grupo Escolar Eduardo Carlos Pereira).
O perfume delicioso que vinha da fábrica de chocolates Gardano. O cheiro do pão fresquinho. Cheiro de chuva caindo no chão seco, fazendo enxurrada, antecipando a enchente, à Rua Coronel Cintra e imediações.
Ainda hoje sinto na memória olfativa o cheiro de doces feitos com coco, das fábricas nas travessas da Rua do Hipódromo e da Rua Bresser. O odor da pitanga (no pé na casa da minha tia, na Rua Visconde de Parnaíba), da bananeira ao lado (a qual deu o apelido à vizinha). Cheiro de frutas do Mercado Municipal, misturando odores de cajus, maracujás, goiabas, resultando: um cheiro único, especial. Cheiro de saudade. Cheiro que ficou impregnado nas minhas lembranças. Cheiro da minha infância.
Mas o mais gostoso que eu trago na memória gustativa é o da macarronada de todos os domingos. O perfume do molho espalhava pela casa, inseridos nos bicos dos pães cortados, ocos, forrados com o miolo, impedindo que vazasse. Essa alquimia italiana minha esposa nunca conseguiu fazer igual, após muitas tentativas em achar qual tempero faltava. Talvez faltasse o cenário das ruas: a conversa que se jogava fora, junto aos vizinhos, sentados com o espaldar das cadeiras encostado aos peitos.
Esse é o cheiro da Mooca, o aroma da saudade, que muitas vezes nos traz um sentimento melancólico infinito, ligado pela memória a situações da separação desse bairro. Nos traz lembranças de experiências e determinados prazeres já vividos, que exala o verdadeiro perfume da Mooca: “Emana a combinação do frescor da lavanda e gerânio associado ao citrus da bergamota, petitgrain e limão e nuances anizadas. O corpo aromático composto de cardamono, cuminho e basilicão são enriquecidos por base amadeirada de sândalo, patchouli, o calor do musgo de carvalho e a sensualidade do musk”.
Perceba, leitor, pelo olfato, na leitura deste capítulo, a emanação volátil do perfume suave e agradável, do aroma marcante da Mooca, e a fragrância da saudade. Esta sim verdadeira. Marca olfativa da Mooca dos meus amores dos meus odores. Sinta este odor, e perceba, ele é da Mooca antiga… dos anos 60… do Perfume Lancaster!
Rubens Ramon Romero
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Não se acaba mais em pizza como antigamente …” style=”fancy”](Antes, tudo acabava em pizza caseira…)
Em agosto de 2009 recebi um e-mail do amigo Luiz S. Saidenberg. O conteúdo da mensagem era sobre a cidade de Nápoles e sobre pizzas. O título era bastante sugestivo: “Em Nápoles, tudo acaba em pizza”.
Bastou ler o artigo e a minha memória adormecida levou-me aos tempos da minha infância e adolescência na Mooca. Lá se vão… Deixa pra lá! Foi entre os anos 50 e 60.
Na minha cabeça, ouço as vozes de mamãe, vovó e vovô. Fragmentos de diálogos, em dialeto napolitano, transportam-me à velha mesa da nossa cozinha. Cozinha perfumada com o cheiro das “pizze” (pizzas) que assavam ao forno…
Minha mãe aponta para mim e diz à vovó: “Chista creatura magna come fosse l’ultima volta in vita! Dio Santo!” (Este moleque come como se fosse a última vez na vida! Deus Santíssimo!)
Vovó rindo, colocando mais uma pizza sobre a mesa, diz: “Lascia stare, Annamarì. Che magne! A lui piace na pizza fatta dalla nonna.” (Deixa pra lá, Annamaria. Que coma! Ele gosta de uma pizza feita pela vovó) Rindo, ela coloca mais um pedaço no meu prato. E eu vou devorando.
Vovô olha para mim e cai na risada, dizendo: “La Madonna, ué! Come magna chist’animale! – ri mais ainda – Che mange! Pizza nunn’è nu peccato. È na indulgenza!” (Eta, Nossa Senhora! Como come este animal! Que coma! Pizza não é um pecado. É uma indulgência!).
E eu passei anos, todo o sábado, devorando pedaços e mais pedaços de “indulgências”.
Pizzas!… Com a lembrança desperta, a memória acena para o meu arrependimento. Arrependimento por não ter guardado entre as tantas receitas que gosto o “segredo” da massa da “nonna”. Uma massa fina, elasticidade perfeita, macia e com bordas crocantes…Adorava ver vovó fazendo a massa de pizza. Ficava ali como se a minha presença agilizasse a feitura da massa. Olhava a “nonna” com “uocchii pezzenti” (Olhos pidonhos). Mas amassa precisava ser sovada e ficar em descanso até crescer ao ponto de ser manuseada.
Eu lembro então, que a massa era a finalização da pizza.
A feitura começava na quinta-feira, quando íamos ao Mercadão comprar a peça mozzarella (fatiada era mais caro), encontrar orégano, o mais fresco possível (tinham mais sabor), “ulive grecce” (azeitonas gregas) e ver se o preço do “alice” (Aliche) estava acessível.
Na sexta-feira, idas às várias feiras-livres para comprar tomates moles (maduros, quase esborrachando). Compravam-se no mínimo quatro quilos.
Tomates que à tarde eram lavados, cozidos em água quente, depois, esmagados com as mãos e passados por uma peneira, para tirar a “pellecchia” (pele) indigesta e as sementes. Em um enorme caldeirão, colocava-se azeite em abundancia e fritavam-se alhos esmagados, cebola ralada, uma colher de orégano ou “rosmarino” (alecrim) – ia do gosto de cada um, sal, uma pitada de pimenta do reino ou pimenta vermelha. Depois o caldeirão era cheio com o sumo dos “pommodori” (tomates) e pelo menos, duas colheres de extrato de tomate para dar mais cor e uma colher de açúcar, para tirar a acidez. O molho ficava “appurando” (cozinhando) por horas, em fogo baixo, até reduzir-se o conteúdo à metade do caldeirão. De vez em quando era mexido com uma colher de pau. E, de vez em quando, para testar o ponto, molhava-se nele um pedaço de pão e provava-se. Pronto o molho, colocava-se em potes herméticos e reservava-se.
A consistência do molho no ponto era quase uma “mousse”. E os discos de pizzas não eram “pincelados” com molho, como hoje em dia. Enchia-se uma concha grande e despejava o molho no centro da pizza e espalhava-se com uma faca…
No sábado à tardinha, vovó abria a massa, uma a uma, com as mãos, rodava a pizza no ar para que ela adquirisse a forma circular. Ajeitava as massas nas formas de folha de flandres e as levava ao forno quente. Depois de um tempo, ela retirava as massas, colocava o molho, a mozzarella, o orégano,rodelas de tomates, as azeitonas e um fio de azeite e as massas voltavam ao forno. Pronto! As pizzas napolitanas estavam prontas para assar! Vez ou outra meu avô queria uma pizza Margheritta. Então, vovó ia ao fundo do quintal pegar algumas folhas de “basilisco” (manjericão). A pizza era a mesma. Apenas substituía-se o orégano pelo “basilisco”.
Enquanto elas assavam, mamãe arrumava a mesa. O vinho para os adultos. A jarra com suco de vinho (dois copos de vinho, um de açúcar e, o resto da jarra era completado com água gelada), o azeite, os copos e os pratos – que só serviam para apoiar os pedaços de pizza. Comia-se a pizza com as mãos. O quarto de uma pizza era dobrado ao meio, como um sanduíche e um pedaço simples era enrolado e enfiado na boca.
E o dia acabava em pizza! Ver um pouco de TV, mais tarde tomar banho e dormir. E enquanto o sono não vinha eu pensava no almoço de domingo. Seria Lasagna à bolognesa? Cappelletti? Gnocchi? Que surpresa nos fará a nonna amanhã?…
Pizza!… E pensar que só havia a pizza napolitana e a sua irmã mais nova, a de “alice”… Ai, a Rainha Margheritta di Savoia virou pizza e ganhou o mundo, e, o mundo ganhou novos sabores de pizzas.
E o Reino da Itália acabou em pizza, a ditadura do Duce (Mussolini) acabou em pizza e a Republica Italiana, com seu entra-e-sai de governos que sempre acabam em pizza, dia desses também vai acabar em pizza.
No Brasil – principalmente em Brasília – é politicamente correto, tudo acabar em pizza…
E as pizzas caseiras acabaram em pizzas encomendadas às cantinas e “deliveries”.
E eu, espero que o mundo termine em pizza. Assim, eu morro feliz!
Wilson Natale
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Festa de arromba 454″ style=”fancy”](Homenagem aos 454 anos da Mooca)
A voz de Waldemar Leopoldo, mais potente do que a sirene do Crespi começa a testar o microfone na cabine de som. “Alô, tessssste” e botando pra tocar marchinhas de bandas militares norte-americanas. É sinal de que o Conde Rodolpho está em festa: Mão-de-onça, Brecha,Tanese, Minhoquinha, Rogerinho Santovito, Zanetti,Andes, Milton, Cosminho, começam a chegar. Festa grená no campo da Javari e no salão a orquestra ensaia o Hino:”Que belo time,que belo esquadrão…pararara…Juventus, Juventus, Nós estamo aqui (sem o “s” mesmo)”.
O som alto acorda o Antenor Burrão que sai buscar pão no Arnaldo, o Fantasma. E a Rua Javari toda desperta. Desde o Clark , passando pela pizzaria San Pedro, na Visconde,até lá na Taquari, perto da farmácia do avô da Soraya Ruffo, grande escritora , sensível porta-voz do nosso bairro.
Ela soube do evento, assim como todo mundo, porque saiu publicado em O Amigo. A galera da Almirante Brasil, Rua dos Trilhos, até as porteiras, na Ana Nery, Ameida Lima, e da Piratininga se prepara pra festança.
Estão chegando ao local o Altemar Dutra, o Mario Zan, o Sivuca, Hermeto Paschoal,Silvana e Rinaldo Calheiros, a Vanusa, Antonio Marcos e Wanderley Cardoso. Jerry Adriani, Jordans, e Jet Blacks virão também.
No Estoril, começam a sair os pedaços de pizza, (o Bimbar só abre à noite). O cheirinho de mussarela derretida já alertao pessoal da Orville Derby, da Jumana, e até da Conde Prates, para o acontecimento. Os trabalhadores da União chegaram cedo pra presentear o bairro com aquele cheirinho delicioso de café com açúcar saindo pela chaminé.
Os funcionários da Fundição Brasil, da Benacchio, e da ferrovia começam a subir nos ônibus fretados pela Breda para se dirigirem para a festa. Também a turma da rua do Hipódromo, da Distrital deixa as quadras esportivas para correr até a Paes de Barros.
Os corações e as mentes se inspiram nesta data. Maria Adelaide Amaral abre a máquina e começa a escrever. A Táta Amaral também. Já pensam no próximo roteiro que virá depois da grande festa.
Na loja dos Turcos o movimento aumenta. A venda de roupas femininas e de camisas social também.
A Falgetano, a Scatamacchia e a Cry’s calçados começam a vender sapatos de festa, scarpins para o baile, tênis para a gincana da Pepe, sapatinhos brancos para os anjinhos que sairão na procissão.
Eu dou uma passadinha no seu Mario charuteiro, meu caminho para comprar pão no Di Cunto. Sempre paro para trocar idéias (fazer algumas reflexões sobre a vida, a espiritualidade humana e nossos sonhos de uma vida melhor para o bairro), com meu amigo Aníbal, o Babu, da Pepe legal. Por ali, sempre passam o Zé Índio e o Maurício, o Roberto Japonês,e toda a gente que adora bater um papo com o Babu, nosso filósofo idealista de plantão. E também para saber onde será o baile. O Babu sempre sabe de tudo. Está sempre mexendo os pauzinhos para melhorar a vida da Moóca. Acho que ele sempre terá amigos por perto. Ainda mais nesta data!
Toninho Bola Murcha e o Ricardo abrem mais cedo a loja do seu Pepinão. A Cantina San Marco, a Mi Piace e Buonna Sera, vão vender muito mais polpetones e pasta, por causa da comemoração.
O Mario Previatto, relojoeiro, nunca vendeu tanto presente, nem no mês de dezembro, quando o Papai Noel passa o dia na loja, ouvindo os pedidos das crianças para o Natal.
Volto com minha bandejinha com sfogliateles de creme e de ricota e bombas de chocolate que trouxe do Di Cunto. Paro mais um pouquinho na Dona Norma, sempre alegre, arrumando a loja. Sorrindo, ela me conta que não vê a hora de ir para a festa. Marinho procura uma camisa de gala. Todas as mulheres se enfeitam na Nair, ou na Adelina, cabeleireiras.
A loja do sr. Olmos fecha bem cedo,para todos poderem comparecer ao evento.
Seu Carilo, a família pé-de-pato, o Zeca, Paulina, dona Otilia, a Nena, (menos o La Barca que está lutando na televisão com o Ted Boy Marino, contra o Carnera), se arrumam para irem juntos.
A turma do Oliveira, o time todo do Parque da Moóca, o goleiro Félix, e até a Miriam Batucada engrossam o movimento na Borges de Figueiredo e na João Antonio para seguirem juntos até a festa.
Hoje, nem o Moderno, nem o Icaraí vão abrir. A Rita Pavone, a Gigliola Cinqueti (com seu Dio Come Ti Amo), terão que esperar para cantar seus sucessos. No Patriarca, ia passar Marcelino Pão e Vinho, mas foi suspenso porque hoje o clima é de alegria. Suspenso também o Romeu e Julieta, porque o dia é de celebrar a vida.
O pessoal do Firmino, do São Judas, Brasilux, Oswaldo Cruz, MMDC, do Pandiá, e até as recatadas mocinhas do Santa Catarina, (enrolando a saia na cintura para ficar mais curta) vão para a Paes de Barros encontrar-se com a galera do Juventus Novo e do São Cristóvão que pela primeira vez estarão vazios, sem precisar atender alguém. A Holandesa fabricou mais sonhos de creme. A Antártica não dá conta de fazer tanta cerveja. E o Arthur Azevedo está todo enfeitado.
Na Pepe, o som das máquinas está infernal. Os carangos todos ficaram envenenados para arrombar a festa. A Metopau, também se apronta e desce a avenida.
No rádio, Walter Silva, o pica-pau grita: “Salve a Moóca!”, seu bairro tão amado que o viu crescer,e passar pelo Dom Bosco, pelo SENAI, até atravessar a ponte sobre o Tamanduateí e virar o primeiro Disc-jóquei de São Paulo. “A mais bela voz do rádio brasileiro”, segundo o Boni, da Globo. Picapau sempre carregou no peito o amor pelo bairro que tanto homenageava e defendia nos microfones por onde passou.
José Magnoli, que virou Hélio Ribeiro, também acordou com aquele vozeirão e botou pra tocar Sergio Reis, Joelma, Carlos Lombardi, Trio Esperança, gente do bairro. Silvana, Rinaldo Calheiros, Ari Sanchez, Golden Boys,Marta Mendonça, Silvinha, Eduardo Araújo, e até o Ed Carlos, que vem da Vila Mariana pra prestigiar. Todos vão cantar quando chegar a hora.
Na Canuto Saraiva, no Largo São Rafael, a criançada corre para pegar os últimos santinhos distribuídos pelo Padre Valentim antes da missa. Até os casais de namorados que trocaram carícias, escondidinhos, atrás da igreja. Até o pipoqueiro e o vendedor de amendoins e de tremoços chegaram mais cedo.
Lá no Alto, Na Bom Conselho, todas as mães, da Fernandes Falcão, Cuiabá, Rua do Acre, arrumam seus filhos com as melhores roupas. O pessoal do IAPI, do IAPETEC, da Tobias Barreto, da Oratório e da Mem de Sá, começa a chegar na maior animação.
As normalistas do Colégio, as solteironas por opção e até as faladas porque namoravam dentro de carros, neste dia podem caminhar juntas em direção à festa.
As beatas, ratazanas de sacristia, as verdadeiras esposas, as mães de família, as mulheres que passam a noite no Esso Clube, as que dançam no Tobias Barreto, as virgens, as nem tanto, mas que estão noivas ,e todas as que vão se casar, hoje podem andar juntas. Moças prendadas, moças feias, velhas bonitas, as bem vestidas, as mal-arrumadas e todas as mal-amadas se encontram hoje para comemorar.
Os homens fiéis às esposas, os fiéis ao trabalho, os leais às partidas de bocha, de dominó, sinuca, e os que vivem de pijama jogando truco, também se vestem para a festa.
A rapaziada que gosta de luz negra,os que amam estroboscópica, cuba-libre,jovem guarda, rock balada e a moçada do reggae, do cigarro de índio, do ping-pong tutti-frutti; do Q-Suco, do rabo-de-galo com ovo colorido;do coturno e coca-cola; a turma que gosta de andar com terço e a bíblia; as meninas que bebem no gargalo e as que só tomam Guaraná, também vão. Todos juntos.coisa rara.
Somente hoje, os fã-clubes do Sunday, Menphis, Pholhas, do A TUCO, se unem para escutar os gatos do SUN 7 tocarem e o Zé Américo cantar “Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones” pra arrancar lágrimas da gente. Si piange, si ride. Serão lágrimas de saudade, de felicidade, de alegria por termos todos a mesma origem. Nascemos aqui. E mesmo quando partimos, e até quando tentamos fugir, nossa alma continua aqui.
Hei, Jude, Hey Joe! Alô Concetta! Roberta, Ascolta mi! Alô, Alô Terezinha! Ei Bella! Ragazza!
Good Morning Starshine! Oh Sole Mio! Champagne !
Here Comes the Sun! Let the Sunshine In!
Ei Moóca, Acorda! Hoje é Seu Dia!
Celina Silva
Obs do Portal da Mooca : Celina Silva é filha do radialista Walter Silva, mais conhecido como Pica Pau, cuja história encontra-se na seção “Famílias e Personalidades” do Portal da Mooca
[/su_spoiler] [su_accordion] [su_spoiler title=”Poemando a Mooca” style=”fancy”]Não é de São Paulo, esta saudade.
Não é do barulho, nem tampouco dos paralelepípedos…
A saudade que vem latejada, é da Mooca…
do que eu fui quando ali morava, de todas as possibilidades que vi nascerem nesse bairro…
Saudade de mim mesma, de coisas que vivi e nunca mais esqueci, porque a Mooca é uma marca de nascença.
É como se morar na rua dos trilhos, na rua Javari e no largo São Rafael, fosse fonte de vida.
Não é de hoje a saudade…
Não é de coisas que passaram: é de pessoas, de cheiros, de vozes…de respirações.
A saudade que tenho agora é a dimensão exata do meu amor pela Mooca.
Quem sabe se voltar seria o começo de tudo?
Soraya Ruffo
(nascida na Maternidade Santa Terezinha, “crescida” na rua Javari, “adolescida” na rua dos Trilhos e na Ararigboia.
Virei mãe na Ezequiel Ramos e me esqueci de quem eu era, quando sai do meu bairro…QUERIA MUITO VOLTAR…)
(Uma ré na Curva do tempo)
A velha Mooca se desfaz. Está virando cinzas. Parou por uns anos e voltou a verticalizar-se. E o trânsito intenso expulsou crianças e adultos das ruas.
Ando pelas imediações onde morava e identifico uma ou outra casa contemporânea dos meus tempos de criança, de juventude e mesmo de idade adulta.
Como estará a “minha” rua, o “meu” quarteirão? Só há uma maneira de saber. Indo até lá.
Longe por uma década espantei-me ao ver as mudanças que sofreram a rua e o quarteirão.
Desapareceram as casinhas térreas geminadas, os sobradões, as casas com jardins de rosas, onde em um canto sempre havia camélias ou um romanzeiro e portões encimados por arcos de madeira ou ferro, suportando primaveras floridas. Eram casas construídas em terrenos de 20m. X 50m que, além do jardim, tinham um quintal imenso onde sempre havia lugar para uma hortinha, um galinheiro e um pé de goiaba ou ameixas. Foram-se as habitações coletivas (duas a três casas no mesmo terreno) e os cortiços, onde os imigrantes se espremiam em minúsculos quartos e cozinhas. Até a minha casa desapareceu, dando lugar a um alto edifício. O mesmo aconteceu com a maioria das habitações do quarteirão. Outras foram demolidas dando lugar a novas casas.
Mas, como em um passeio desses a gente nunca está só, Dona Memória começa a me atiçar com seus “Veja!”, “Olha!”, “Recorda!”, “Lembra!”…
E eu lembrei a rua quando tinha paralelepípedos (O asfalto veio somente em meados anos 60). No quarteirão ainda havia dois pedestais de lampiões de gás – ficaram lá, também, até meados dos anos 60 quando foram recolhidos. Lembrei a iluminação elétrica, com suas lâmpadas incandescentes em postes bem espaçados, o que obrigava a maioria dos moradores a manter uma luz no alto da fachada de suas casas, para compensar.
Lembrei de todas as casas, construídas entre os anos 10 e 30, em que o ocre predominava. Restaram duas dos anos 20, na esquina. Talvez ainda existam porque passaram de residências a bares. E a venda e os dois bares que eu conheci, no meio do quarteirão, já haviam desaparecido no tempo em que eu ainda morava lá.
Desapareceu o que restara do cimento que cobria a velha calçada, onde se podia ver nos remendos, iniciais, datas e a marca das patas do Leão – um cachorrinho vira-latas que pertencia a D. Anunziatta. Em um daqueles remendos estava o meu garrancho: Ciccio-1963. Estava lá, em 1998, quando me mudei.
Não é mais a minha rua, nem o meu quarteirão. Tudo limpo, asfalto e calçadas impecáveis; prédios com fachadas agradáveis, recuados do meio-fio, com jardins projetados. Tudo lindo, com “ares” de classe média alta… Mas, na rua não há vida. Um ou outro transeunte.
De repente, a minha rua e o meu quarteirão renasceram como num passe de mágica. Era a saudade que se manifestava…
Desde as cinco horas da manhã a rua já estava acordada. Além do cheiro do café passado na hora, sentia-se o cheiro da comida. Eram as marmitas sendo preparadas. As geladeiras ainda eram um luxo para poucos. Tudo era feito na hora ou no dia.
Na calçada ainda estavam as latas vazias de óleo ou de tinta que serviam como latas de lixo. Latas que o lixeiro esvaziava na madrugada.
Na rua, a vida também acordava. Lá vinha a velha perua Dodge, do seu Feliciano – o português da padaria, a entregar pães nos dois bares e nos domicílios. São inesquecíveis os seus pães-doces e suas broas de milho. E, desde as seis horas a rua era inundada pelo som das vozes dos homens e das mulheres que iam para o trabalho; pelo som dos rádios; falatórios em portões, falatório e bate-boca no cortiço, onde todos queriam usar o único banheiro ao mesmo tempo. Choro de crianças com fome, mulheres batendo panelas, gritando: “Olha a hora!”
E Diva, a cantora de ópera (era professora de canto). Nunca soube o seu verdadeiro nome. Creio que ninguém na rua sabia ou se lembrava mais. Era “la Diva”. E Diva todas as manhãs “aquecia” a sua voz cantando árias da Tosca ou da Traviata. Quando ela cantava a Ave Maria, conseguia fazer até a criança mais traquinas e malcriada emudecer e dizer como os adultos: “Stupendo!”
Crianças ocupavam a rua por turnos. Era por causa das aulas do Grupo Escolar: primeira turma, das oito as onze; segunda turma, das onze às duas; terceira turma, das duas às cinco. Pelas seis da tarde, todos os “anjinhos” estavam unidos, fazendo mil estripulias pela rua…
E os visitantes habituais iam chegando. Lá vinha o Giaccomo verdureiro, com a sua carrocinha, a oferecer verduras e legumes; e vinha o seu Farid , o turco vendedor de tecidos e que, na verdade não era turco e sim Judeu Sefarad. Logo atrás, vinha o “amolador” de facas e tesouras, tocando a sua flautinha de pan.
Eram tantos os visitantes…
O Totó (Antonio) vendendo seus “biglietto” de loteria – um “mirréise u gasparino”! A D. Assunta que fazia “pasta” como ninguém – mas só por encomenda – vinha fazer as entregas de Cannelloni, Rondelli, Cappelletti, Lasagne. Seu Arrigo vinha vender Foccazza e Risollis, feitos por sua mulher (deliciosos). “Nonno” Deodatto vendia doces. Vinha com seu cestinho de vime, coberto com um pano de saco muito branco, gritando pela rua: Sfogliatelle! Taralli! Cannollis! Adultos e crianças “babavam” quando ele chegava.
Como em uma miragem vejo o Tonino, il vesghietto (Toninho, o vesguinho) “pilotando” a sua carrocinha-geladeira com os peixes comprados ao Mercadão.
Ecoa pela minha cabeça a velha cantilena, no dialeto napolitano, com que ela chamava a freguesia:
“U pesce! Venit’a cumprà, signò! U pesce fresc’! La sarda! Venit’a cumpra, signò! A cumprà oggi, ch’i dimani nun ce ne veng’! A cumprà! Signo, a cumpra!”
“O peixe! Venha comprar senhoras! O peixe fresco! A sardinha! Venha comprar senhoras! Comprar hoje, que amanhã eu não virei! Venha comprar! Venha comprar, senhoras!”
Também apareciam lá na rua alguns meninos, com tabuleiros presos por uma tira ao pescoço. Eles vinham vender pirulito, quebra-queixos; amendoins torrados, salgado ou doce; cocadas pretas ou brancas.
Cinco da manhã o dia-a-dia do povo da minha rua começava…
Seu José abria a venda uns quinze minutos mais cedo, pois sempre havia alguém precisando de algo para completar a marmita.
Seu Alcides e o Seu Carlino, desde as cinco, estavam com seus bares abertos, vendendo o pão e leite e os “pingados” aos solteiros que iam para o trabalho, ou então, uma cachacinha para “esquentar o frio”
Nunziatta, às sete horas, abria a porta de sua casa à espera de alguém para um corte de cabelo, uma tintura, ou para fazer as unhas e um pouco de fofoca.
Otilia, a costureira estava também, desde as sete da manhã, com as janelas abertas, pedalando a máquina de costura.
Dona Mercedes, entre a arrumação da casa e a lavagem da roupa, lia para algumas “clientes” a “buenadicha” no Tarô. Dizia-se cigana de Andaluzia, mas na verdade ela era das Ilhas Canárias. Ela era muito boa nesse mister, pois sempre tinha muita gente a procurá-la. E Dona Mercedes também fazia “magias”, tudo de acordo com o Livro de São Cipriano…
Menos pretensiosa, D. Margherita benzedeira, quase centenária, benzia caxumba, malocchio (mau-olhado), quebranto, bucho virado, cobreiro. E recitava rezas para curar ou aliviar doenças do corpo e da alma. Homeopata intuitiva fazia chás, garrafadas e mezinhas.
E lá ia o seu Nicola, fazer sua “banca” de jogo de bicho em uma mesinha do bar do Carlino. Volta e meia uma Radiopatrulha parava em frente ao bar e dois Guardas desciam e entravam. Saiam logo depois de fazerem “uma fézinha”…
E na rua sempre aparecia um ou outro vigarista a aproveitar-se da ingenuidade e solidariedade napolitana.
Alguns vendedores napolitanos compravam mercadorias na Rua 25 de março, no Brás ou Bom Retiro e vinham para as ruas “napolitanas” vender o seu “peixe”. Vinham com uma história de “imigrante que, sem encontrar um emprego está se desfazendo das coisas que trouxe da Itália”.Contavam com lágrimas nos olhos, “que a penúria era tanta que estava vendendo as peças de enxoval da pobre esposa.” Abriam uma mala grande que ainda continha os selos do navio, da alfândega de saída e de entrada no país e mostravam colchas adamascadas, da Toscana, jogos de sala, cama e mesa em puro linho, bordados em “punto d’Assisi” ou adornados com rendas da Bélgica. Desfiavam o seu drama e decadência em dialeto napolitano, atiçando a saudade e o sentimento de solidariedade das napolitanas sensíveis . Vendiam tudo. A vista. E nunca mais voltavam. E pelas etiquetas que eles nem se davam ao trabalho de tirar da mercadoria, descobria-se a farsa (As peças que eles mostravam abertas não tinham etiquetas). Às vezes esses “mascalzoni” eram reconhecidos em outras ruas das imediações, usando da mesma cantilena. E ai, o “pau comia” feio. E levavam vassouradas, pedradas e xingos. Corriam para nunca mais voltar à região.
E a rua tinha os seus pecados e segredos: Imaginem vocês! O Elio e a Menna vivendo juntos há vinte anos e não são casados! Isso é imoral! E a Leda? Você soube? Dizia que passava a noite cuidando de uma senhora idosa e doente, lá na Consolação. E a verdade, ela “cuidava” de muitos rapazes, num puteiro em Santa Efigênia. E a Betina, com aquela carinha de santa, que dizia trabalhar das seis à meia-noite em uma tecelagem do Brás é na verdade uma cadela! É “táxi-girl” de um “Dancing”, lá na Av. Ipiranga…
Ah! A minha rua! Nela, eu, crianças brincando , blasfemando e cantando.
Os meninos: Pula-carniça, futebol, andas ou muletas, bola de gude, jogo de botão, carrinho de rolimã, pipa, “capuscetta”, iô-iô, pião. Meninas: Pular corda, amarelinha e caracol, diabolô, passa-anel, bambolê e as cirandas infinitas: “Cirandeiro, cirandeiro, oh! A pedra do seu anel, brilha mais do que o Sol…”
Meninas brincavam de “Estátua”, meninos brincavam de “Como está, fica!”; meninas cantavam “Senhora dona Sancha, coberta de ouro e prata…”; meninos recitavam “Vaca amarela, cagou na panela. Quem falar primeiro, come toda a bosta dela…” Meninos e meninas brincavam de esconde-esconde: “Balança caixão! Balança você! Dá um tapa na bunda e vai se esconder!…”
E as “Advinhas”? Advinha! Advinha! Advinha o quê? Uma coisa amarela na noite se vê! E onde é que está? No Céu está e no mar também! O que é? O que é? Já sei, sei, sei! Então diz o que é! É a Luaaaaaa!…
Desde o amanhecer até as dez da noite, a rua vibrava com os sons da vida. Sons que eram interrompidos pelo sono. Mas sempre havia um outro dia. Um amanhã que poderia parecer como tantos outros passados, mas que não era. Sempre havia algo novo e, por mais insignificante que fosse, era um acontecimento. Vivia-se a vida no aconchego e no calor humano…
E a “minha” rua vai se desvanecendo. As vozes do passado se calam e o silêncio quebra a curva do tempo.
Hoje, a rua não é mais minha. É só mais uma entre as tantas desta cidade. Uma rua de prédios lindos com jardins projetados, cercados por grades de ferro-batido encimadas por uma cerca elétrica e câmeras de segurança. Ali, a gente não pode mais ir entrando na casa dos outros, gritando: “Com licença”!
A rua de agora se fechou em fortaleza. Da “minha” rua ficaram apenas os ecos do passado…
Wilson Natale
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